sexta-feira, 3 de novembro de 2017

_um poema chapado_

eu bolo os meus problemas e ansiedades
em uma seda com gosto de maçã,
enquanto acendo o cigarro mal-pitado
eu esqueço o que fazia antes,
o que tinha que ter feito
e o que tinha que fazer.
se lembro eu faço muito bem e perco a noção do tempo
se eu esqueço eu fumo
-fumei-.
e fiquei com vontade de escrever um poema
que só fizesse sentido aos olhos ébrios enevoados.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

em um museu há peles
peles coloridas e secas,
peles de cobra.
nesse mesmo museu
perto das peles
há datas.
datas de quando as peles caíram e foram substituídas por peles novas.
eu vejo essas peles.
me reconheço nelas.
um dia eu acordo e já não sou a mesma
quem eu era secou,
minha cor mudou.

em um museu há várias peles
de vários momentos que eu mudei.
momentos tão bonitos e tão tristes
e tão distantes.
dentro de um museu

sou eu.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Hoje eu andei na estrada de tijolos vermelha. Pensei em todas as coisas que eu queria escrever durante esse tempo e resolvi juntar todas elas. Espero que fique coeso. Espero que entendam.

Eu não sei quando tudo ficou uma merda. Eu queria saber, porque sei lá, de repente podia voltar e fazer diferente. Tantas coisas que me machucaram desse jeito tão terrível e eu não sei se mudaria elas. Elas fizeram quem eu sou. E mesmo não sendo lá aqueles 100% de pessoa, eu acho que tô bem. É difícil olhar no espelho às vezes. Também é difícil sair de casa. Mas eu saio, na procura de algo que move a minha vida. Move pra frente e pra trás, como fosse uma dança de carnaval. Move por algo que eu não sei o que é, mas que nunca é suficiente. Nunca amei ninguém o suficiente ou nunca fui o suficiente. Ás vezes eu não demonstrei o suficiente. Ou nunca senti amor o suficiente. Eu não sei das coisas, entende? Eu não sei quando tudo ficou uma merda, mas eu queria saber. Ontem eu bati em um cara e eu não me senti bem com isso. Queria poder ter batido em todos do recinto. Eu não sei quando foi que eu comecei a odiar o meu corpo ou o meu sorriso só porque não era igual ao de alguém. Eu não sei quando foi que eu aprendi que o bonito é branco magro e loiro. De preferência rico. Eu não sei quando foi que eu comecei a me pôr tão pra baixo que nem um tatu conseguiria me achar debaixo da terra. Eu me sujo, eu me poluo e eu me vendo à corpos que nunca saberão meu dia preferido no mês - não que isso realmente importe. Eu não sei quando tudo ficou uma merda.

Me desculpa por não saber e me desculpa caso não tenha ficado coeso. Esse desabafo que eu queria tanto escrever de diferentes formas, mas juntei tudo em uma porque eu me perdi em quando tudo ficou uma merda.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Se você não tivesse me roubado o cigarro da boca talvez nunca teríamos nos beijado. Talvez eu teria ficado lá, parada, olhando essa sua beleza que me deixou abismada desde o dia 1. Quem me ensinou a ter medo?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

- i can understand how it might be kinda hard to love a girl like me, i don't blame you much for wanting to be free, i just wanted you to know that i've loved you better than your own kin did- 

eu não lembro se alguma vez na minha eu não tenha me sentido quebrada. como se faltasse algo dentro de mim, no meu peito. lembro de não conseguir manter amizades quando pequena e minha mãe dizia que era porque eu brilhava, e esse brilho incomodava quem não era habituado à luz. por muito tempo eu achei que isso verdade. eu não lembro qual foi a última vez que me senti verdadeiramente feliz. toda felicidade era acompanhada por um pânico. toda felicidade era acompanhada de uma intensa procura por falhas, quaisquer que sejam. eu não me lembro a última vez que eu não quebrei alguém. eu sou a reencarnação de midas estragada e tudo que eu toco morre. nem a solidão me acompanha mais. 

- from the very start it's my own fault what happens to my heart... you see, i've always known you'd go-

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Você me deixou louca. Não do jeito saudável nem do jeito romântico. Você aflorou a incendiária em mim, a louca, a destruidora, a ciumenta. Você me fez quebrar vidros, quebrar meus pulsos e arder de paixão em seu colo. Te amei a cada momento mesmo quando queria te matar. Te amei mesmo quando te odiei e quebrei teu carro, risquei teu telefone, pixei a sua casa. Te amei mesmo quando perdi a noção, perdi a visão - mas em momento nenhum perdi a paixão. Essa paixão de sangue e de ódio. Ódio por me permitir ficar nesse ciclo de trepar brigar trepar até brigar trepar para parar de brigar. Isso não foi romântico, não foi saudável, não foi bonito. Mas eu ainda hoje te amo como fosse o primeiro dia que roubei teu cachorro, queimei tuas roupas. Te amo ainda hoje, as águas que passaram em nada acalmaram meu fogo.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

quando não tem mais um motivo pra ficar
quem é que continuará a lutar?

o coração que pulsa o mundo é um
em um suspiro gigante,
em uma vida cheia de pulsares diferentes
o coração que pulsa o mundo é um
na floresta em que vive a serpente.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

what a beautiful dream

sonhei que corria com os lobos tal como mogli
e me pendurava pelas árvores tal como lucy.
nadei em cachoeiras tal como peixe,
e voava pelo ar tal como passarinho

acordei com um vazio no meu peito
porque vivo na selva de concreto
onde os animais usam disfarces
e eu nunca sei quando vão me atacar.

seria melhor ter continuado selvagem
e não usar a máscara da civilidade,
pois sonhei que era uma loba
e que comia os homens da cidade.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

o mundo me tirou a risada
e tudo o que eu mais amava
não posso reclamar, eu ainda tenho casa
e não me falta teto e nem comida.
mas me falta alegria e a segurança
de sair na rua e não ter medo de morrer.
tenho medo de polícia, tenho medo de homem
tenho medo do governo, tenho medo de tudo
o mundo arrancou tudo da minha mão,
tudo o que eu mais amava tá à sete palmos do chão
o mundo me tirou a alegria e toda a minha paixão
e me deixou esfomear a alma
não tem mais céu, não tem mais mar
que faça a minha alegria voltar
o mundo me tirou e não e só a mim
todo dia eu vejo criança que não onde morar
gente negra com o sangue escorrendo pelo chão
vejo as minas tendo que batalhar pelo direito de uma vida que elas mesmas possam controlar
esse não é um lugar que eu queira morar,
mas já não tenho pra onde ir.
o mundo me tirou a alegria e eu já não consigo mais ver o sol
nem esperança pra ninguém
não tem mais conversa, não tem pacificidade
eu fui pacífica quando arrancaram toda a minha felicidade
agora é arma na mão, fumaça no ar
já não é mais o tempo de dialogar
a minha gente não tem mais liberdade
de falar o que quer, de poder cantar
agora não tem mais volta, eu achei que não ia viver pra contar
a era de aquário tá demorando demais pra chegar
e enquanto isso só sangue à derramar
a gente não consegue mais estudar
e a fome só que chega e alastra.
eu não tenho mais o dom da poesia,
eu não tenho mais nada.
o mundo me tirou toda a alegria.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Faz anos que eu monto o mesmo quebra-cabeça, no qual as únicas peças que eu tenho são as da borda. Montei uma moldura e a fotografia muda sempre, variando com o romance no qual eu estou envolvida. Faz anos que eu monto o mesmo quebra-cabeça, o quebra-cabeça da minha alma machucada e mal resolvida. Ocupo espaços que não deveriam ser ocupados, forçando peças a encaixar onde não cabem. Faz anos que eu quebro esse quebra-cabeça que, na verdade, nada mais é do que o meu coração quebrado. Cada peça para cada amante que foi embora desse amor mal-resolvido, mal-acabado, mal-criado e mal-fudido. Cada retrato para qual que me usou, me deixou e cada canto para qual eu usei e enjoei. Faz anos que eu monto esse mesmo quebra-cabeça, mesmo que já montado, mesmo que pronto eu desfaço e refaço.
Já dizia Rubel: 'quando bate aquela saudade' eu enfio ela no cu.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Como eu me sinto?

Às vezes não sinto. Quando sinto é como se eu tivesse acabado de chorar há pouco, mesmo não tendo chorado nada. Ou com o coração apertado, como tivesse acabado de acordar de um pesadelo terrível. Sinto que fui amaldiçoada com uma doença que não me permite o amor, não me permite a felicidade. Sinto que ninguém nunca conseguiria me amar. Sinto que eu sou inamável. Sinto também que eu nunca conseguiria me permitir ser amada sem afastar e ferir os outros. Eu sou um punhal, eu sou um repelente, eu sou um veneno. Ninguém fica, ninguém permanece.
Mas às vezes, bem às vezes eu me sinto feliz e agradecida. Gosto quando o azul do céu fica forte e quando o sol está quente em dias frios. Gosto de noites de lua cheia e de céu estrelado. Mas depois eu durmo, acordo e tive pesadelos.
Como eu me sinto? Como se não vivesse. Sinto que existo em um corpo que não é meu, em uma vida que não é minha, falando com uma voz que ninguém ouve além de mim e com uma aparência que ninguém enxerga.
Como eu me sinto? Quando sinto eu sinto dor.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Já não escrevo porque ando quebrada. Como fosse boneca e pelo quarto estivessem jogados os meus membros partidos. O coração ainda bate. Fraco, mas bate. Já não consigo mais chorar porque ando quebrada demais. Convivo com a dor diariamente sem fazer muita questão que esta se afaste. Já não vasculho mais a internet em busca de risadas ou de amor, só vejo ódio. Vejo tudo, menos o reparo que eu preciso. 
Já não escrevo mais. 
Meus dedos também se quebraram.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Escrevo porque me sinto só
e porque não vejo mais nada para mim nessa cidade.
Escrevo porque palavras são tudo que eu tenho
e mesmo assim elas se vão com o vento.
Escrevo porque tenho saudade
e porque tudo me dói, me rasga, me mutila.
Escrevo porque já não me sinto mais em casa onde achei que fosse minha moradia.
Escrevo porque amanheço quando já não é mais dia e durmo quando já não é mais noite.
Escrevo porque a solidão fala comigo e é a minha única e mais presente companhia.
Escrevo porque não choro, nem amo mais.
Escrevo porque vivo no vazio dentre as horas que não passam - nos segundos.
Escrevo porque me sinto só
e porque já não me sinto mais pertencente nesse mundo.
Tudo o que eu tenho - ou tinha
é esse grito surdo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

eu te olho de longe enquanto te sinto de perto 
e você acorda desse sono longo 
em que não deixou de me abraçar por um segundo 
me olha, me beija, me morde, me fode 
e adormece de novo em meus braços 
enquanto eu acordada
te olho de perto e te sinto de longe
você dormindo - e sorrindo
quando eu te beijo
quando eu te aperto.
vou embora e quase sinto saudade
do seu beijo molhado,
que me deixou melada
e eu nao consegui dormir.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Sobre traumas e dores

Tenho 21 anos e 9 meses. Nesses 21 anos eu enterrei minha mãe, um sogro, minha bisavó, meu avô. Nesses 21 anos, eu sangrei sem saber que tinha sangrado e apanhei. Nesses 21 anos, eu perdi minha cabeça, cortei meus pulsos, tomei toneladas e toneladas de remédio. Nesses 21 anos eu estive sozinha. Primeiro foi a minha mãe. Eu não sinto mais a dor - não sei se eu me acostumei ou se superei - mas eu lembro. Lembro que não dava pra respirar, não dava pra ficar de pé sem sentir que meus membros estavam sendo arrancados. Lembro que eu não dormia e não sabia diferenciar sonhos de realidade. E vivi nisso por um ano. Eu era um pedaço de vidro trincado.
Depois foi o meu avô. Meu vô Osmar. Meu vô que ia tocar violão pra mim e pedia que eu destravasse o dedo dele. Ele ficava todo feliz quando eu ia levar o violão pra afinar - violão que eu nunca aprendi a tocar. Comprava doces escondido pra mim. Lembro que fui me despedir e ele parecia um bebê. Nesse dia, eu fiquei sozinha. Depois foi minha bisavó. Mulher forte que abandonou marido abusivo pra criar quatro filhos sozinha, mas que teve que voltar pro abuso pro bem das crianças. Fiquei sozinha nesse dia.
Depois foram inúmeros sangramentos e perdas que eu não sabia que estava tendo. E foram remédios, e remédios e remédios que não me ajudaram a dormir. Fiquei sozinha durante esses dias.
Depois foram abandonos. E abandonos. E mais abandonos. E eu fiquei sozinha. E mais um dia eu acordei e eu vivi. Vivi mal e porcamente, mas vivi. Não quero compaixão ou pena. Eu quero olhos nos olhos. Escrevo isso porque sobrevivi. Eu sou uma sobrevivente. Durante 21 anos e 9 meses doeu em mim, mas eu tô aqui. Minha vida é separada em antes da morte e depois da morte. Eu venci a morte, eu venci a dor, eu venci a solidão. Eu venci tudo que há de ser vencido em 21 anos e 9 meses. Nada mais me destrói, nada mais me comove, nada mais me move. Eu danço, eu canto, eu rio, eu choro. Eu amo e desamo quando há de ser necessário. Mas eu não quero dó, eu não quero piedade. Eu quero olho no olho, eu quero coragem. Eu quero viver como não vivi durante vinte um anos e nove meses. Essa é a hora. Eu venci tudo e sei que não acabou por aqui. Sei que vai vir mais e que eu não vou cair, eu vou permanecer.
Porque eu sou uma sobrevivente.
E vou continuar.
Por mais que doa, por mais que chova.
Eu sobrevivi.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

é uma merda acordar.
abro meus olhos e já vem essa inundação de culpa
culpa suja de quem beija o diabo
sinto-me culpada e não sei nem porque
culpa suja, culpa de pecado
culpa de mulher
culpa de fogueira

terça-feira, 2 de maio de 2017

A vida dói na gente e sempre vai doer. Eu fiquei toda nervosa de ter caminhando pra mim, não sabia se eu ria ou se eu fugia. Tudo o que eu queria fazer era te abraçar, te esmagar de amor. Te encher de beijinho no rosto até você me mandar parar. Não fiz nada disso. Só dei gole na cerveja e fingi que não tava te encarando. A vida dói em mim e doeu pra caralho não ter você. Doeu mais ainda te ver indo embora hoje, depois de tanto tempo querendo você na minha cama, se embrulhando em mim. A vida dói na gente e eu não consigo contar nas mãos as vezes em que me magoaram e eu não consigo nem imaginar o quanto ainda vai doer. Não tem atalho, não tem estrada que me faça desviar de você. É você, sempre foi, sempre vai ser, é você. Você dói em mim porque eu te amo feito nuvem caindo em terra seca, te amo feito algodão doce derretendo na boca de criança. Te amo do jeito mais doentio, do jeito mais saudável, do jeito mais fogueira em noite de inverno. A vida dói na gente e sempre vai doer. Mas enquanto eu tiver você por perto, o meu menino de verão, vai valer a pena. Que a vida dói na gente, mas não dói tanto quanto não te ter.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Devaneios de tomada

Às vezes penso que a eletricidade faz muito barulho. Se eu ainda tivesse os meus amigos físicos, poderia perguntar se há mesmo um barulho. Um som. De repente, tudo faz música e a gente que não ouve. O silêncio quase nunca existe. Ou o mundo canta ou quem canta é a gente. Mas, por fim. Tirei todas as coisas da tomada pra que pudesse ficar em silêncio, mas aí um passarinho veio cantarolar na minha janela.
- Boa tarde, você por favor, faria a gentileza de se retirar?
Não foi embora. Ao invés disso, encarou a tomada como eu estava encarando. Ruído ruim, ruído chato. Nos meus tempos de ensino médio eu gostava muito de física mas eu não entendia as correntes elétricas. Penso em eletricidade e penso naqueles romances que a gente só chega perto e dá um treco na periquita. De você olhar a pessoa falando e começar a babar. Eu queria fazer parte de uma corrente elétrica. Sair correndo por esses cabos e fazer ruído na tomada dos outros. Põe o dedo aí, otário.

domingo, 23 de abril de 2017

percebo que só tem um pouco de mim.

acho que é porque eu gasto um tanto com os outros.
gasto minha voz e não querem ouvir,
gasto saliva e não querem beijar,
gasto amor e não querem amar.


percebo que meu frasco já está quase lá no fim
acho que é porque eu gasto muito de mim.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O mundo para em um eterno instante
Em que tudo lá fora
E aqui dentro nada.
O mundo suspira em um breve momento
Em que lá fora sons, música, poesia
E aqui dentro - nada.
O mundo respira, o mundo cria e por mais um dia
Aqui dentro - nada.
No escuro do meu mundo, do meu quarto
As paredes costumavam falar
Eu costumava cantar.
Mas tudo que era meu foi pro mundo
E tudo que era eu - se perdeu.


O mundo acorda
E aqui dentro - nada.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

entrei no mar com pedras nos pés e cartas nas mãos
para àqueles que nunca vão ler minhas poesias
nem sequer pensar em mim algum dia

entrei no mar para nadar com o meu coração
vestido cor do céu, cabelo cor de terra
eu entrei no mar pras sereias virem me buscar

as poesias borraram com o sal e a boca se encheu d'água
eu entrei no mar pra mergulhar e sentir a vida acabar
com pedras nos pés e o coração na mão
eu entrei pra nadar, mas eu não vou mais voltar

Se você vier me perguntar por onde andei eu não sei dizer. Na parede do meu quarto tem estantes e estantes de todos os lugares imaginários que eu fui e nunca voltei pra contar história. Na minha coleção tem corações e corações de todos os artistas que eu amei. Poetas, músicos, malabaristas, pintores. Alguns dançavam por mim enquanto outros praguejavam meu nome em trovas pelos bares. Eu sou cigana, eu te falei. Eu não paro, eu não fico, eu não me sustento em lugar nenhum enquanto suspenso minha alma pelo ar. Eu sou cigana, eu não tenho lugar pra morar. Eu sou cigana, eu não tenho lugar pra permanecer.

terça-feira, 4 de abril de 2017

estaria muito mais saudável eu
se não tivesse beijado os lábios teus.

talvez minha cabeça estaria em outro lugar
que não em teus braços
e meu sorriso não fosse bobo
de pensar em teus carinhos.

estaria muito mais saudável eu
se não tivesse experimentado o beijo seu.

quarta-feira, 29 de março de 2017

sou fadada à um amor de poesia
em que a paixão vem e inflama
no decorrer de um dia.
todo feito de amor e canção 
num instante tenro,
sabendo que nada é eterno
vivendo cada momento
segurando no mínimo instante
pra que amanhã, quando o dia passe
outro artista venha à minha porta
me amar no dia de hoje como fosse
sempre

terça-feira, 28 de março de 2017

eu quero te amar debaixo dos lençóis
quando surgir o dia e fecharmos as janelas
é melhor quando somos nós dois.

eu quero te amar debaixo de uma cabana
feita de roupa de cama suja
enquanto a gente se enrosca e você diz que me ama
e eu te digo que ainda sou tua.
eu quero não ter que pensar
que faz quase um mês
desde que você me tocou pela última vez
e o nosso castelo de chamego desabou
que não tinha mais com o que dormir
e o que era limpo e puro a máquina de lavar sujou

quinta-feira, 23 de março de 2017

hoje é quinta-feira e eu tenho tanta coisa pra fazer
não dá nem tempo de sentar, fumar aquele cigarro
tomar aquela cerveja que a gente disse que ia tomar
provavelmente, vou me atrasar pro trabalho mais uma vez
porque eu parei pra escrever
hoje é quinta-feira e eu não vou poder descansar
que hoje é quinta-feira e é dia útil
dia de servir gente rica com comida que eu não vou comer
e enquanto lavo a louça eu vou pensar em te ter
tomara que hoje eu consiga ter um tempo pra amar você
depois das seis

segunda-feira, 20 de março de 2017

Desde que ouvi as primeiras gotas caírem na jarra eu não consegui parar de escutar. Não importa o volume da música, a goteira prevalecia sobre qualquer melodia, qualquer música, qualquer som que não fosse o da água batendo no metal. Parecia você. Insistente, petulante, irritante. Essa goteira que atrapalhou meu dia de trabalho foi você me atrapalhando à todo momento com sua voz que não sai da minha cabeça. Quando você fala - eu não consigo não te ouvir. Não consigo desviar o olhar, não consigo parar de te secar gota por gota. Não vejo mais ninguém ao meu redor e nem quero. Você e essa maldita goteira, que desde que eu percebi pela primeira vez - eu nunca mais deixei de ver.

domingo, 5 de março de 2017

Eu acho que nunca tinha visto o sol nascer tão bonito quanto hoje. Sei com certeza que nunca tinha visto as luzes dos postes apagarem de súbito como vi. Sei que tinha ao meu lado pessoas que eu amo, mas que eu não sei se me amam. Sei que lembrei de você quando o sol ainda não tinha nascido e o mundo ainda estava meio neon. Pensei que talvez, quem sabe, você ainda lembre de mim vez em quando. Quando nossos cabelos bagunçavam e eu deitava no seu colo pra repetir histórias que você já tinha ouvido. Mas eu sei que talvez, quase por certeza, meu nome não é mais citado e eu não sou mais lembrada. Não sei o tipo de coisa que você ouve sobre mim agora, mas eu sei que você não vai ouvir sobre como eu dormi hoje na praça mais uma vez sob o nascer do sol e que eu pensei em você. Cê tinha que ver o susto que eu levei quando as luzes apagaram, todas de uma vez só! Cê tinha que ver os transeuntes passando e a gente ali, só dando risada sem nem conseguir se mexer direito. Pensei que talvez, quem sabe, meu nome ainda seja poesia como o teu ainda é melodia. Pensei que talvez, quem sabe, cê quisesse saber por onde eu tô andando e nos braços de quem eu ando me consolando. Alguns braços são bons, outros nem tanto. Alguns me olham de um jeito bonito e outros nem me enxergam. Mas é que, sabe, eu só pensei que talvez eu pudesse escrever isso aqui pra você saber que eu tô bem, obrigado por perguntar, que eu sinto sua falta sim senhor e que eu to tentando não ficar magoada pelo descaso com o qual cê me trata. Tudo bem não me amar mais, mas não precisa fingir que eu não tô ali, sabe? Mas ó: ta tudo bem.

Hoje o sol nasceu bonito e depois o dia nublou. E foi a primeira vez que eu vi as luzes da noite apagarem, como um aviso de que um novo dia chegou. E eu pensei em você.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

eu lembro da manhã
que eu fui te falar adeus
e você não se movia, não se mexia
tum
tum
-
e eu fiquei com medo
daquela máquina parar
e você parar de respirar
tum
tum
-
atrás da máscara de oxigênio
eu vi você chorar
enquanto segurava sua mão gelada
e eu desabei, fiz promessas pra você
eu queria que não tivessem feito você sofrer
e quando a ultima lágrima caiu
tum
-
-
-
-
-

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

minha máquina de escrever anda parada
na tinta seca que ela carrega
todas as poesias costumavam ser sobre você.
o bilhete que você escreveu
- algo sobre eu ser sua poeta preferida -
junta pó na minha estante caída
enquanto eu não pego o que é preciso pra limpar
esses restos de amor que ficaram pra empoeirar


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sombra

Nunca achei que dentre todas fosse me escolher para ser aquela que você fode durante à noite para no outro dia me deixar passar fome. O café-da-manhã é muito sofisticado pra mim que vivo à tua sombra. O almoço é reservado à noiva - nunca serei. Eu sou a meretriz, a puta da noite. Eu sou o amor da sua vida durante as poucas horas que você me reserva o prazer. Não sirvo pra ser mãe, nem esposa, nem noiva, nem nada. Eu sou puta, eu sou suja. Me faz virar de costas pra não me olhar nos olhos, pra não ver que a paixão arde dentro de mim como se meu corpo fosse o próprio inferno. Não achei que dentre todas fosse me escolher pra matar a sua carência. Poderia ter sido diferente, anos trás? Poderia ter sido diferente se você não me olhasse como àquela que é destinada à noite, aos escombros, às sombras, às orgias. Eu não sou aquela que você queria que eu fosse e mesmo assim - como eu te amo -  você me nega. Me usa quando não tem ninguém mais pra aquecer os teus lábios, me empresta quando não tem mais ninguém para dormir ao teu lado. Eu sou àquela que tua boca evita de pronunciar. Fala o meu nome, todas as letras! Fala e grita o meu nome como se fosse o mais sujo dos xingamentos, a mais podre das ofensas! Eu sou uma ofensa aos teus bons costumes. Eu incomodo a tua missa como fosse uma hóstia sem vinho. Hei de ser a sombra da lua, hei de ser o raio de sol. Nunca achei que dentre todas fosse me escolher para usar. Usou, me desgastou e agora há de voltar para o casamento. Agora eu aguardo meu próximo amor vir me arrebatar, vir me foder até cansar e achar que eu sou demais, mais uma vez. Eu sou uma ofensa. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

[e me despertou o medo
de me ver na solidão
pois tu voas, passarinho
e eu nem sei sair do chão

regressa logo por ligeiro
encosta em mim pra descansar
ancora o seu riso em meu peito
faz do meu leito o teu mar]

A cama se desacostumou com o formato do teu corpo. Por um tempo eu dormi nessa forma achando que de alguma forma ia te trazer de volta. Não trouxe. Depois eu cresci e a forma sumiu. Perdi um dos vestígios da sua existência. Tuas roupas no teu cabide - quando eu te contei sobre isso, cê ficou tão feliz. Teu cabide ainda tá ali com uma camisa que eu esqueci de devolver. Evitei olhar pras tuas coisas como se fosse evitar de lembrar que você se foi. É difícil, porque certa vez cê escreveu teu nome na minha mesa e tá ali ainda. Tentei apagar mas não saiu. Tudo bem, eu acho, né? Fiquei por tanto tempo tentando evitar de notar os teus resquícios, teus cheiros, tuas bitucas. Até hoje eu ainda acho coisa ou outra que você largou por aqui - ou que eu guardei. Demorei meses pra ir buscar minhas coisas. Sei lá, achava que elas estavam contaminadas pela sua presença, pela sua alma. Eu não queria lembrar que te perdi. Não queria lembrar que eu te amei. Vez e outra eu sinto teu cheiro de lar no vento e respiro fundo pra não perder. Vai saber quando é que cê vai aparecer de novo. Vai saber quando é que cê vai me ventar. Fiquei tanto tempo escondendo sua presença dentro de casa que eu não percebi - o único resquício de você que sobrou foi eu.

[e se não for voltar
faz favor de me avisar
que dói o tempo, passarinho
até eu me acostumar]

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Pra onde você foi? Me diz que eu quero te encontrar
Essa distância quilométrica que está prestes a me matar
Pra onde você foi? Por favor, me leva junto
Meu corpo não aguenta, dói demais pra suportar
Pra onde você foi? Eu preciso te olhar
Eu preciso te tocar, eu preciso te sentir
Só mais uma vez, só pra aliviar o peso dessa solidão
Pra onde você foi? Por favor, por favor, volta pra cá
Dói demais minha alma longe da sua
Pra onde você foi? Onde é que você está?
Por favor, por favor!
Pra onde você foi?????

sábado, 4 de fevereiro de 2017

não te preocupes que eu não me demoro 
nesse teu peito arregaçado por mãos que não foram as minhas
e nesse seu sofrimento por um amor que não é o meu
não te preocupes que eu não me demoro
não me prolongo, não me sustento
nessas suas pernas que não me enlaçam 
não te preocupas, amor, que eu não me esqueço
e eu não esquecerei
dessas suas mãos que não seguraram as minhas 
desses seus beijos que não desejam meus lábios
mas ainda sim me procura, ainda sim me toca
não te preocupas, que eu não te amo
não te desejo, não te quero
eu te amei com a mesma facilidade que abandonei
esse seu corpo que não ama, não enlaça, não enxerga ninguém
além de si mesmo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Pare de fumar colapsando

Dia 1.

Acordei já era meio-dia. Meu corpo pensava que ainda era cedo e queria dormir mais, mas a minha mente ainda perturbada pelos sonhos que tive não me deixou dormir. Uma xícara de café com leite. Duas xícaras de café com leite. Três. Queria um cigarro, mas eu parei de fumar. Talvez eu tenha dinheiro pra um maço. Não quero minister, eu quero sampoerna. Um real, dois reais, seis reais, sete reais. Essa merda é nove reais. Com nove reais eu compraria três espetinhos, mas tô tentando comprar cigarro. Fumei tabaco, não me acalmei. Duas horas da tarde. Meu quarto revirado, a casa toda suja. Vou limpar. Jogo todas as roupas do guarda-roupa no chão, arrumo tudo, limpo tudo. Passei vassoura, passei pano. A casa ta limpa, meu quarto arrumado. Será que eu lavo a louça? Não, já fiz demais. As minhas pernas tremeram e eu achei que fosse morrer - não morri, sobrevivi. Como tudo na minha vida, eu sobrevivo. Agora trovoa e eu tô lembrando da última vez que chorei, sentada na calçada tendo outro, mais um dos ataques. Essas crises que a dor me provoca, que a ansiedade não foge. Toda essa velocidade de pensamento não me deixou quieta por um segundo e não me deixou parar de pensar em você. Coração partido, casa suja. Não quero pensar nisso. Não quero mas já pensei. Você é o jogo e eu perdi. Perdi, continuo perdendo, continuo perdendo. O fluxo não pára e eu não descanso.

Dia 1: eu colapsei.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

como é amar uma mulher?
eu não sei muito bem como é que é amar uma mulher porque as únicas mulheres que já amei ou morreram ou se foram.
não sei muito bem também como é que é amar um homem, porque todos os homens que já amei ou me afastaram ou me negaram.
sei que eu acho bonito a suavidade de uma mulher e como todas elas tem os olhos felinos. sei bastante dos teus olhos felinos, que passam e não pousam por ninguém que não seja do seu fetio. sei das tuas mãos, que me tocam de surdina enquanto eu não vejo e não sinto, e do teu sorriso que veem de lado quando os meus olhos já fugiram dos seus.
como é amar uma mulher?
eu não sei, mas eu estou descobrindo. descobrindo que a suavidade na fala significa muito mais do que qualquer poema já publicado no mundo e que nem ismália e nem amélia são tão sublimes quanto você. você é um gato selvagem, que foge quando eu chego e não se acanha quando eu peço pra vir pra perto. se esfrega em mim, me tira todo o ar e quando minhas mãos se emaranharam nos seus cabelos, cê para.
eu não sei como é amar uma mulher, eu não sei nada de amar.
eu não sei o que é querer tanto alguém à ponto de me deixar desmontar. eu não sei nada de amar, eu não sei nada de amar uma mulher. eu sei que eu tenho medo de te olhar, de te tocar pra não quebrar essa sua perfeição que me atormenta, me faz passar as noites em claro pensando se eu tenho a coragem que é preciso pra amar uma mulher, pra amar você.
eu não sei nada de como é amar uma mulher.
eu não sei nada de amar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Quando eu era criança eu sabia das coisas. Aí eu cresci e não sei de mais nada. Antes eu sabia. Sabia porque meus pais falavam e palavra de adulto é lei. Quem se equilibra no balanço é rei e quem cai da árvore é o bobo da corte. Eu era a que caía e sempre caí. Quanto mais eu cresço, menos eu sei. Duas décadas de vida é tempo pra caralho e eu já devia saber de algumas coisas - mas não sei de nada. Sei que às vezes faz frio no verão e que às vezes é bom parar de fumar. Sei que eu gosto de você e que houve um tempo que eu largaria tudo pra ficar com você e tentar te fazer feliz, mas agora não mais. Quanto mais eu cresço, mais eu caio da árvore. Quantos eu mais cresço, menos convicta das coisas eu me torno. Tenho saudade de ser criança e ter certeza que natal é época de presentes, fevereiro é época de escola e setembro é época de aniversário. Quando eu era criança...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

eu achava que meu coração não conseguiria mais suportar
toda essa dor, esse caos prestes a desmoronar
eu pensava que já tinha sofrido o suficiente
mas deus sabe que minha vida acabou de começar
e o diabo sabe que ele ainda tem muito o que me tomar

eu jurava que meu coração não ia aguentar
tanto choro, tanta dor, tantas feridas fétidas
tantos buracos podres no meu peito
marcas de todas as guerras que eu estive a lutar

deus sabe quantas vezes eu fui derrubada
menosprezada, agredida e desnorteada
por essa vida que não me dá nada, só me tira
deus sabe quantas vezes eu chamei seu nome
e o céu emudeceu de compaixão
deus sabe quantas facadas eu aguentei levar
de pessoas que me amavam
deus sabe quantas pessoas eu aguentei enterrar
quantos corações partidos eu tive que curar

quem sabe mais nessa minha vida toda é o diabo
que faz o terror cantar
sabe ele que quem mais machuca, que quem mais fere
quem mais fode a alma e deixa faltar o ar
são as pessoas que juram te amar

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

ah, se cê visse o que eu vejo
durante a madrugada nesse teu sorriso bobo e o cabelo emaranhado
entre o abraço das minhas pernas e no embrulho das minhas mãos
ah, se cê visse como eu te vejo!
teu olho brilhante quando a lua aparece
e quando cê me toca e teu rosto resplandece
e como violão eu melodia
e como voz cê me canta
ah, se cê visse como eu te vejo!
cê começa a falar e eu não consigo desviar o olhar
hipnotizada pela tua mente, pelas suas ideias
ouvindo você contar mais uma das suas epopeias
suas tragicomédias gregas
ah, se cê visse como eu vejo!
e ouvisse como eu te ouço
e soubesse que a sua voz é o som mais bonito que eu quero ouvir de manhã
e que seu cheiro é a coisa mais gostosa que eu quero sentir
enquanto me embaraço nesse seu corpo
que eu amo e prezo tanto.
ah, menino!
se você se visse como eu te vejo...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Eu sinto tanto a sua falta que dói no meu corpo inteiro. Cada noite sem você é um pesadelo a mais, é um gole de conhaque puro com meu estômago vazio. É um arrepio interrompido, um bocejo atrapalhado. Eu sinto tanto a sua falta que dói no meu ouvido a falta da sua voz, dói no meu corpo o vazio do seu toque e a falta de seus dedos na minha buceta. Eu sinto tanta a sua falta que é humilhante, dizer mais uma vez, por mais um dia o quanto eu sinto saudade de você. Mais um dia sozinha, mais um dia de desabafo não-lido e de dores não-sentidas. Sinto falta dos seus cachos no meu rosto e do seu calor que não me deixava dormir.


Pelo menos agora eu durmo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Alguns nomes tem o gosto amargo. Teu nome tinha um gosto doce. Quando eu te conheci e repetia alto e claro seu nome na minha cabeça durante um dia inteiro, sílaba por sílaba. Recitava seu nome até achar estranhamente lindo como esse conjunto de letras faziam um som tão bonito, um som que era seu. Tinha um gosto de chocolate com cigarro, de conhaque com maconha. Um gosto de buceta com água. Teu nome era tudo que eu queria sentir, era a tua boca que eu queria beijar e era o teu nome que eu queria repetir. Queria invocar sua presença, teu gosto, teu cheiro, tudo pelo som de você. Seu nome era você - tão saboroso, tão doce, tão quente, tão verão. Hoje em dia teu nome tem um gosto amargo, que me arrepia até o céu da boca. Si-la-ba por si-la-ba. Teu nome estragou e eu deixei de molho, deixei na chuva até esquecer como pronuncia. Teu nome era tão bonito, tão musical e hoje em dia se um outo alguém aparece com o seu nome roubado eu não chamo. Não invoco mais a sua presença pelos nomes de outras pessoas. Teu nome estragou e tua presença sumiu. Sílaba por sílaba, fonema por fonema. Teu nome tem um gosto amargo.