[e me despertou o medo
de me ver na solidão
pois tu voas, passarinho
e eu nem sei sair do chão
regressa logo por ligeiro
encosta em mim pra descansar
ancora o seu riso em meu peito
faz do meu leito o teu mar]
A cama se desacostumou com o formato do teu corpo. Por um tempo eu dormi nessa forma achando que de alguma forma ia te trazer de volta. Não trouxe. Depois eu cresci e a forma sumiu. Perdi um dos vestígios da sua existência. Tuas roupas no teu cabide - quando eu te contei sobre isso, cê ficou tão feliz. Teu cabide ainda tá ali com uma camisa que eu esqueci de devolver. Evitei olhar pras tuas coisas como se fosse evitar de lembrar que você se foi. É difícil, porque certa vez cê escreveu teu nome na minha mesa e tá ali ainda. Tentei apagar mas não saiu. Tudo bem, eu acho, né? Fiquei por tanto tempo tentando evitar de notar os teus resquícios, teus cheiros, tuas bitucas. Até hoje eu ainda acho coisa ou outra que você largou por aqui - ou que eu guardei. Demorei meses pra ir buscar minhas coisas. Sei lá, achava que elas estavam contaminadas pela sua presença, pela sua alma. Eu não queria lembrar que te perdi. Não queria lembrar que eu te amei. Vez e outra eu sinto teu cheiro de lar no vento e respiro fundo pra não perder. Vai saber quando é que cê vai aparecer de novo. Vai saber quando é que cê vai me ventar. Fiquei tanto tempo escondendo sua presença dentro de casa que eu não percebi - o único resquício de você que sobrou foi eu.
[e se não for voltar
faz favor de me avisar
que dói o tempo, passarinho
até eu me acostumar]
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