segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sombra

Nunca achei que dentre todas fosse me escolher para ser aquela que você fode durante à noite para no outro dia me deixar passar fome. O café-da-manhã é muito sofisticado pra mim que vivo à tua sombra. O almoço é reservado à noiva - nunca serei. Eu sou a meretriz, a puta da noite. Eu sou o amor da sua vida durante as poucas horas que você me reserva o prazer. Não sirvo pra ser mãe, nem esposa, nem noiva, nem nada. Eu sou puta, eu sou suja. Me faz virar de costas pra não me olhar nos olhos, pra não ver que a paixão arde dentro de mim como se meu corpo fosse o próprio inferno. Não achei que dentre todas fosse me escolher pra matar a sua carência. Poderia ter sido diferente, anos trás? Poderia ter sido diferente se você não me olhasse como àquela que é destinada à noite, aos escombros, às sombras, às orgias. Eu não sou aquela que você queria que eu fosse e mesmo assim - como eu te amo -  você me nega. Me usa quando não tem ninguém mais pra aquecer os teus lábios, me empresta quando não tem mais ninguém para dormir ao teu lado. Eu sou àquela que tua boca evita de pronunciar. Fala o meu nome, todas as letras! Fala e grita o meu nome como se fosse o mais sujo dos xingamentos, a mais podre das ofensas! Eu sou uma ofensa aos teus bons costumes. Eu incomodo a tua missa como fosse uma hóstia sem vinho. Hei de ser a sombra da lua, hei de ser o raio de sol. Nunca achei que dentre todas fosse me escolher para usar. Usou, me desgastou e agora há de voltar para o casamento. Agora eu aguardo meu próximo amor vir me arrebatar, vir me foder até cansar e achar que eu sou demais, mais uma vez. Eu sou uma ofensa. 

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