Tenho 21 anos e 9 meses. Nesses 21 anos eu enterrei minha mãe, um sogro, minha bisavó, meu avô. Nesses 21 anos, eu sangrei sem saber que tinha sangrado e apanhei. Nesses 21 anos, eu perdi minha cabeça, cortei meus pulsos, tomei toneladas e toneladas de remédio. Nesses 21 anos eu estive sozinha. Primeiro foi a minha mãe. Eu não sinto mais a dor - não sei se eu me acostumei ou se superei - mas eu lembro. Lembro que não dava pra respirar, não dava pra ficar de pé sem sentir que meus membros estavam sendo arrancados. Lembro que eu não dormia e não sabia diferenciar sonhos de realidade. E vivi nisso por um ano. Eu era um pedaço de vidro trincado.
Depois foi o meu avô. Meu vô Osmar. Meu vô que ia tocar violão pra mim e pedia que eu destravasse o dedo dele. Ele ficava todo feliz quando eu ia levar o violão pra afinar - violão que eu nunca aprendi a tocar. Comprava doces escondido pra mim. Lembro que fui me despedir e ele parecia um bebê. Nesse dia, eu fiquei sozinha. Depois foi minha bisavó. Mulher forte que abandonou marido abusivo pra criar quatro filhos sozinha, mas que teve que voltar pro abuso pro bem das crianças. Fiquei sozinha nesse dia.
Depois foram inúmeros sangramentos e perdas que eu não sabia que estava tendo. E foram remédios, e remédios e remédios que não me ajudaram a dormir. Fiquei sozinha durante esses dias.
Depois foram abandonos. E abandonos. E mais abandonos. E eu fiquei sozinha. E mais um dia eu acordei e eu vivi. Vivi mal e porcamente, mas vivi. Não quero compaixão ou pena. Eu quero olhos nos olhos. Escrevo isso porque sobrevivi. Eu sou uma sobrevivente. Durante 21 anos e 9 meses doeu em mim, mas eu tô aqui. Minha vida é separada em antes da morte e depois da morte. Eu venci a morte, eu venci a dor, eu venci a solidão. Eu venci tudo que há de ser vencido em 21 anos e 9 meses. Nada mais me destrói, nada mais me comove, nada mais me move. Eu danço, eu canto, eu rio, eu choro. Eu amo e desamo quando há de ser necessário. Mas eu não quero dó, eu não quero piedade. Eu quero olho no olho, eu quero coragem. Eu quero viver como não vivi durante vinte um anos e nove meses. Essa é a hora. Eu venci tudo e sei que não acabou por aqui. Sei que vai vir mais e que eu não vou cair, eu vou permanecer.
Porque eu sou uma sobrevivente.
E vou continuar.
Por mais que doa, por mais que chova.
Eu sobrevivi.
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