quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

eu lembro da manhã
que eu fui te falar adeus
e você não se movia, não se mexia
tum
tum
-
e eu fiquei com medo
daquela máquina parar
e você parar de respirar
tum
tum
-
atrás da máscara de oxigênio
eu vi você chorar
enquanto segurava sua mão gelada
e eu desabei, fiz promessas pra você
eu queria que não tivessem feito você sofrer
e quando a ultima lágrima caiu
tum
-
-
-
-
-

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

minha máquina de escrever anda parada
na tinta seca que ela carrega
todas as poesias costumavam ser sobre você.
o bilhete que você escreveu
- algo sobre eu ser sua poeta preferida -
junta pó na minha estante caída
enquanto eu não pego o que é preciso pra limpar
esses restos de amor que ficaram pra empoeirar


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sombra

Nunca achei que dentre todas fosse me escolher para ser aquela que você fode durante à noite para no outro dia me deixar passar fome. O café-da-manhã é muito sofisticado pra mim que vivo à tua sombra. O almoço é reservado à noiva - nunca serei. Eu sou a meretriz, a puta da noite. Eu sou o amor da sua vida durante as poucas horas que você me reserva o prazer. Não sirvo pra ser mãe, nem esposa, nem noiva, nem nada. Eu sou puta, eu sou suja. Me faz virar de costas pra não me olhar nos olhos, pra não ver que a paixão arde dentro de mim como se meu corpo fosse o próprio inferno. Não achei que dentre todas fosse me escolher pra matar a sua carência. Poderia ter sido diferente, anos trás? Poderia ter sido diferente se você não me olhasse como àquela que é destinada à noite, aos escombros, às sombras, às orgias. Eu não sou aquela que você queria que eu fosse e mesmo assim - como eu te amo -  você me nega. Me usa quando não tem ninguém mais pra aquecer os teus lábios, me empresta quando não tem mais ninguém para dormir ao teu lado. Eu sou àquela que tua boca evita de pronunciar. Fala o meu nome, todas as letras! Fala e grita o meu nome como se fosse o mais sujo dos xingamentos, a mais podre das ofensas! Eu sou uma ofensa aos teus bons costumes. Eu incomodo a tua missa como fosse uma hóstia sem vinho. Hei de ser a sombra da lua, hei de ser o raio de sol. Nunca achei que dentre todas fosse me escolher para usar. Usou, me desgastou e agora há de voltar para o casamento. Agora eu aguardo meu próximo amor vir me arrebatar, vir me foder até cansar e achar que eu sou demais, mais uma vez. Eu sou uma ofensa. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

[e me despertou o medo
de me ver na solidão
pois tu voas, passarinho
e eu nem sei sair do chão

regressa logo por ligeiro
encosta em mim pra descansar
ancora o seu riso em meu peito
faz do meu leito o teu mar]

A cama se desacostumou com o formato do teu corpo. Por um tempo eu dormi nessa forma achando que de alguma forma ia te trazer de volta. Não trouxe. Depois eu cresci e a forma sumiu. Perdi um dos vestígios da sua existência. Tuas roupas no teu cabide - quando eu te contei sobre isso, cê ficou tão feliz. Teu cabide ainda tá ali com uma camisa que eu esqueci de devolver. Evitei olhar pras tuas coisas como se fosse evitar de lembrar que você se foi. É difícil, porque certa vez cê escreveu teu nome na minha mesa e tá ali ainda. Tentei apagar mas não saiu. Tudo bem, eu acho, né? Fiquei por tanto tempo tentando evitar de notar os teus resquícios, teus cheiros, tuas bitucas. Até hoje eu ainda acho coisa ou outra que você largou por aqui - ou que eu guardei. Demorei meses pra ir buscar minhas coisas. Sei lá, achava que elas estavam contaminadas pela sua presença, pela sua alma. Eu não queria lembrar que te perdi. Não queria lembrar que eu te amei. Vez e outra eu sinto teu cheiro de lar no vento e respiro fundo pra não perder. Vai saber quando é que cê vai aparecer de novo. Vai saber quando é que cê vai me ventar. Fiquei tanto tempo escondendo sua presença dentro de casa que eu não percebi - o único resquício de você que sobrou foi eu.

[e se não for voltar
faz favor de me avisar
que dói o tempo, passarinho
até eu me acostumar]

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Pra onde você foi? Me diz que eu quero te encontrar
Essa distância quilométrica que está prestes a me matar
Pra onde você foi? Por favor, me leva junto
Meu corpo não aguenta, dói demais pra suportar
Pra onde você foi? Eu preciso te olhar
Eu preciso te tocar, eu preciso te sentir
Só mais uma vez, só pra aliviar o peso dessa solidão
Pra onde você foi? Por favor, por favor, volta pra cá
Dói demais minha alma longe da sua
Pra onde você foi? Onde é que você está?
Por favor, por favor!
Pra onde você foi?????

sábado, 4 de fevereiro de 2017

não te preocupes que eu não me demoro 
nesse teu peito arregaçado por mãos que não foram as minhas
e nesse seu sofrimento por um amor que não é o meu
não te preocupes que eu não me demoro
não me prolongo, não me sustento
nessas suas pernas que não me enlaçam 
não te preocupas, amor, que eu não me esqueço
e eu não esquecerei
dessas suas mãos que não seguraram as minhas 
desses seus beijos que não desejam meus lábios
mas ainda sim me procura, ainda sim me toca
não te preocupas, que eu não te amo
não te desejo, não te quero
eu te amei com a mesma facilidade que abandonei
esse seu corpo que não ama, não enlaça, não enxerga ninguém
além de si mesmo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Pare de fumar colapsando

Dia 1.

Acordei já era meio-dia. Meu corpo pensava que ainda era cedo e queria dormir mais, mas a minha mente ainda perturbada pelos sonhos que tive não me deixou dormir. Uma xícara de café com leite. Duas xícaras de café com leite. Três. Queria um cigarro, mas eu parei de fumar. Talvez eu tenha dinheiro pra um maço. Não quero minister, eu quero sampoerna. Um real, dois reais, seis reais, sete reais. Essa merda é nove reais. Com nove reais eu compraria três espetinhos, mas tô tentando comprar cigarro. Fumei tabaco, não me acalmei. Duas horas da tarde. Meu quarto revirado, a casa toda suja. Vou limpar. Jogo todas as roupas do guarda-roupa no chão, arrumo tudo, limpo tudo. Passei vassoura, passei pano. A casa ta limpa, meu quarto arrumado. Será que eu lavo a louça? Não, já fiz demais. As minhas pernas tremeram e eu achei que fosse morrer - não morri, sobrevivi. Como tudo na minha vida, eu sobrevivo. Agora trovoa e eu tô lembrando da última vez que chorei, sentada na calçada tendo outro, mais um dos ataques. Essas crises que a dor me provoca, que a ansiedade não foge. Toda essa velocidade de pensamento não me deixou quieta por um segundo e não me deixou parar de pensar em você. Coração partido, casa suja. Não quero pensar nisso. Não quero mas já pensei. Você é o jogo e eu perdi. Perdi, continuo perdendo, continuo perdendo. O fluxo não pára e eu não descanso.

Dia 1: eu colapsei.