quarta-feira, 6 de julho de 2016
Eu estou desaparecendo. Grande parte do tempo eu me sinto invisível. Sento e observo enquanto pisoteiam as minhas mãos e não me ouvem gritar. Às vezes alguém olha na minha direção, mas eu não sei dizer se me vê. Eu não lembro quando foi a última vez que alguém me viu. Me enxergou. Não lembro quando foi que um certo olhar encontrou com o meu e eu fiquei paralisada. Deve fazer tempo. Acontece também quando alguém perde um isqueiro na bagunça. Eu acho e deixo em cima da mesa. Ninguém percebe que foi eu. Tudo bem, sabe, nunca me importei muito com isso. Eu me importava com o seu olhar, mas você se tornou invisível pra mim e nossos olhares não se encontram mais. Não sei por onde você anda e o isqueiro de quem você acha, mas espero que esteja tudo bem e que não estejam pisando nas tuas mãos como pisam nas minhas. Eu também já não me vejo e espelhos não fazem muito sentido quando não há o que ver. Também não sei onde estão meus isqueiros. Esses dias encontrei um que havia perdido. Teria sido você que o encontrou? Talvez não. Provavelmente não. Nem quando você ainda me via você me olhava. Escrevo isso porque desapareço. Escrevo isso porque quero ser lembrada como a pessoa que sabia onde estavam os isqueiros. Não peço holofotes e muito menos falso reconhecimento de falsos olhares de falsos olhos que nem sequer veem. Peço que se lembre: seu isqueiro está na mesa. Escrevo isso porque não vejo mais as minhas mãos. Não vejo nem sequer os meus dedos engraçados e tortos do pé. Não me escuto mais; temo que ninguém mais escute. Então me despeço para o silêncio que eu grito. Me despeço para os olhos que não me veem e os ouvidos que não me escutam. Os isqueiros perdidos serão encontrados.
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