quinta-feira, 12 de maio de 2016

Meu cadáver decomposto só começou a feder agora. As unhas estão ali, intactas, com esmalte comido. Sou eu, né. Quando viva eu mesma comia meus dedos por ansiedade. Quando viva, eu não fedia isso tudo. Eu lembro de quando ficava feliz ao ver o sol e de quando eu pensava que tudo é mais alto à noite. Conspirava por amores irreais e contos de fadas. Afinal de contas nunca senti a ervilha debaixo do colchão. Quando viva, não era especial. Quem sabe era agradável. No mínimo agradável. Eu acho. Me olhando agora não me reconheço muito. Perdi as pintinhas do rosto. Alguma larva comeu, provavelmente. Vida que segue. Não vi luz nenhuma mas também não há escuridão. Eu só to aqui observando a minha carne podre. Quando viva, me sentia doente. Ainda sinto. Às vezes tento voltar pro meu corpo e sinto as larvinhas beliscando o meu couro putrefato. Decadente, de fato, sempre fui. Até meu cadáver é vulgar. Só queria uma porcaria de incenso pra jogar nessa vala, ver se esse cheiro de boêmia estragada passa. Quando viva, eu bebia muito. Agora conhaque não me faz mais efeito. Quando viva eu não sentia muita coisa.

Quando viva eu já estava morta.

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