terça-feira, 31 de maio de 2016

pergunta
se eu to bem
se to comendo direito
se to estudando
pergunta
se eu to feliz
se eu to conseguindo
viver um dia após o outro
pergunta
como as coisas estão
pergunta do meu pai
dos meus cachorros
dos livros que eu to lendo
pergunta qualquer merda
manda uma música, porra
eu me queimei
eu me cortei
eu só queria conversar
pergunta alguma coisa
qualquer coisa
só não me abandona
só não desaparece

segunda-feira, 30 de maio de 2016

queria poder te explicar
tudo que eu sinto ao te olhar
como meu coração palpita
e ao te ver sorrir
meu coração faz cantar
e se eu não entendo
eu escuto
voce falar
sobre as coisas da vida
e quando me deixa deitar
nesse peito que emana calor
e quando segura a minha mão
e sorri pra mim
eu exalo amor

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Poderia ter sido eu
Que teve o ventre rasgado
Mutilado
Por animais excitados
Poderia ter sido eu
Que teve o sangue derramado
O rosto marcado
E as pernas arreganhadas
Por homem desalmado
Poderia ter sido eu
Que teve o consciente roubado
Por trinta homens famintos
Será que fizeram rotação
De quanto em quanto tempo
Fariam um novo arrastão?
Poderia ter sido eu
Eu só quero ir pra casa
E meu pai não para de chorar
Poderia ter sido eu
Que teve a vida roubada
Entendeu ou não entendeu?
Poderia ter sido eu

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Te amei de um jeito exacerbado
Exagerado
Que me esgotou
Te amei como os anéis perdidos
Na rua
Em qualquer lugar
Que pudesse
Cair
Mas eu te amei
Tanto
E tão sozinha

Eu devia ter percebido o desperdício quando te dei todos os anéis que eram especiais pra mim e você os perdeu. Na rua, provavelmente, junto com os conhaques e sangue seco. Eu gostava disso em você, mas eu devia ter percebido. Eu devia ter notado que não havia nada além de fogo ali. Nunca queimou por mim. Eu me joguei na fogueira. Primeiro meus braços, depois minhas pernas, meus cabelos, meus olhos, meu coração. Eu sempre estive ali. Fiquei sem razão pra ficar. Fiquei porque te amei desesperadamente. Te amava de um jeito que doía. De um jeito que te dava tudo de bom em mim e eu fiquei sem nada. Te amei sozinha.

terça-feira, 24 de maio de 2016

É bicho que come mato
É bicho que come irmão
É bicho que caga na cidade
E pixa os muros da construção
É bicho que comete estupro
É bicho que quer ser Deus
É bicho que comete todo tipo de abuso
É bicho que não sabe ouvir não
É bicho estúpido
É bicho de gente
É bicho que usa terno feito de assassinato
É bicho que rouba pão
É bicho nojento
É bicho rastejante
É bicho que queima sua casa
Mata seu pai
Estupra sua mãe
Sequestra sua irmã
A onça tem medo do bicho
Que mora na selva de concreto
Da o sorriso falso
Vai roubar o seu teto
É bicho asqueroso
É bicho do Mato
Lá na selva o rei já morreu
Matei pra ver sangue escorrer
Aqui no concreto eu sou Deus
Aqui no concreto o rei sou eu

É bicho que come mato
É bicho que come irmão
É bicho que caga na cidade
E pixa os muros da construção
É bicho que comete estupro
É bicho que quer ser Deus
É bicho que comete todo tipo de abuso
É bicho que não sabe ouvir não
É bicho estúpido
É bicho de gente
É bicho que usa terno feito de assassinato
É bicho que rouba pão
É bicho nojento
É bicho rastejante
É bicho que queima sua casa
Mata seu pai
Estupra sua mãe
Sequestra sua irmã
A onça tem medo do bicho
Que mora na selva de concreto
Da o sorriso falso
Vai roubar o seu teto
É bicho asqueroso
É bicho do Mato
Lá na selva o rei já morreu
Matei pra ver sangue escorrer
Aqui no concreto eu sou Deus
Aqui no concreto o rei sou eu

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O cheiro de cigarro fica no seu cabelo emaranhado
Eu emaranho com as mãos
E ce me beija com essa boca de fumaça paraguaia
E eu gosto
Gosto quando você me embrulha com as pernas
Me abraça com teu corpo quente
Me envolve nesse verão que é a sua alma
Ensolarando minhas curvas com as suas mãos

sexta-feira, 20 de maio de 2016

não peça-me pra ficar
se não tem a intenção de me amar
se eu não for teu céu
e teu luar
eu levarei meus ventos
e farei soprar
o meu amor em outro lugar
Aí eu chego e cê me enrola nas pernas e eu me perco. Não sei mais onde eu começo e onde você termina. Aí cê me beija o pescoço e me deixa arrepiada. Ainda me pergunta se eu gosto só de meter contigo ou se eu realmente gosto de você. Te conheci na segunda e na terça já te gosto. E muito. Desses olhinhos que me seguem pelo quarto e não me dizem nada até que eu diga. Dessa sua voz, que me canta um Caetano que é pra eu aprender. Eu gostei porque achei que o som da sua voz combina com a minha. Aí cê acaba comigo, me deixa dolorida, sem ar e me deita nesse peito quente, que me amorna nesse inverno gélido. Eu gosto de dividir o cigarro sentada em cima de você que posso te olhar de perto e te deixar acanhado quando digo que cê é muito bonito. Mas é mesmo. Cê sabe que eu não ando muito bem da cabeça e que uma das únicas coisas que anda me deixando feliz nesses dias é quando eu posso encostar a cabeça na sua e só parar por um instante. Sei que eu não devo porque quando cê for embora eu fico só. Mas até lá é tempo. Cê ouve minhas dores e eu as tuas e fica tudo bem. Desde segunda-feira, anda tudo muito bem. Aí eu vou embora, e se eu voltar, tenho a certeza que cê vai me prender no meio das pernas e beijos pra eu ficar.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

que coisa engraçada
foi ter te encontrado
numa fria segunda
de inverno
e que coisa estranha
foi ter te beijado
e logo assim
me entregado
à esse seu sorriso
de menino perdido
que logo me desatou as roupas
e fez nossos corpos fundidos
à essa fria terça
de inverno
mas que coisa louca
foi ter me apaixonado
nessa quarta-feira
enquanto cantavámos cazuza
fechando e abrindo a geladeira a noite inteira
que coisa bonita foi
eu ter pousado os olhos em você
e desde então, não consigo mais me ocupar
e quando a gente se encontra
todo esse inverno se faz veranizar
desde que pousei os olhos em você
eu não consigo mais esquecer
os beijos que ficam marcados
e os sorrisos perdidos
em tão pouco tempo
já te enxergo muito
e me deixo levar
por esse seu jeito
discutindo comigo
porque eu não gosto de raul
e nem de gritaria nenhuma
se não for da minha voz no seu ouvido

essa aí eu não sei cantar
mas se você quiser ficar
por aqui
eu vou decorar

terça-feira, 17 de maio de 2016

ce me olha com esses olhos de mar
e eu nunca sei dizer se quer me fuder
ou quer me matar

cê me percorre com essas mãos
e eu não sei diferenciar
se quer me sufocar ou se quer me amar

cê me penetra com esses lábios
e eu já não sei se eu quero me afastar
se eu quero me entregar
faz tanto tempo
que alguém não me toca
verdadeiramente
dentre as pernas.
faz tanto tempo
desde que alguém não me rasga
inteira
e me arranca os cabelos.
faz tanto tempo
desde que eu não tenho escoriações
de transas violentas
e o cansaço de ter tido muito
e querer mais
faz tanto tempo
que eu esqueci
como é que é ter as pernas meladas
de mel
por toda a parte
não tem mais unhas nas minhas costas
não tem mais mãos nas minhas coxas
nem risos sufocados pelo prazer
faz tanto tempo
desde que não me falta o ar
no peito
desde que não me contorço
expulsando os demônios dentro de mim
faz tanto tempo
que minha boca é seca
e a minha buceta deságua
faz tanto tempo
e eu não me lembro mais
como é que é ser despeçada
por tanto meter

segunda-feira, 16 de maio de 2016

hoje teve tempestade elétrica
e eu não vi acontecer
esses trovões todos me são uma lembrança
de como eu me sentia ao ver você
eu moro na terra do nunca
onde nunca meu coração é partido
nunca eu volto pra casa
nunca eu olho pra trás
e todo o meu mundo é inventado 

eu moro na terra do nunca
onde eu nunca vejo o amanhã chegar 
nem a madrugada cair
nem o choro desatar

eu moro na terra do nunca
onde nunca tem ninguém pra me salvar
e meu medo da velhice se faz aflorar
eu moro sozinha
na terra do nunca 
me fazendo criança pra não me matar 

sábado, 14 de maio de 2016

ninguém vai ter a paciência
de terminar esse poema
que eu fiz juntando toda minha decadência
enquanto observo sua partida.
era melhor a dois
quando éramos nós
mas cê foi pra ver o mundo
cê foi pra ver o que é que há
além dos meus braços queimados
que te querem em um amor profundo
e puro.
era melhor a dois
quando éramos nós
jogando o coração na amarelinha
brincando de amor de mentirinha
eu tinha tanto medo
de ficar sozinha
e fiquei
sempre fui
enquanto aguardo o teu retorno
talvez eu devesse partir também
e ir me procurar nos braços de outrém
como eu sei que você faz
no meio dos álcoois
no meio dos lençóis
que não são os meus
talvez eu devesse ir embora
e me procurar nos cortes,
nas cicatrizes
das guerras que eu travei
comigo
enquanto te amava
enquanto não me encontrava
dentro to teu peito
quando você residia no meu
queria que você me amasse
como eu amo você

era melhor a dois
quando éramos nós

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Meu cadáver decomposto só começou a feder agora. As unhas estão ali, intactas, com esmalte comido. Sou eu, né. Quando viva eu mesma comia meus dedos por ansiedade. Quando viva, eu não fedia isso tudo. Eu lembro de quando ficava feliz ao ver o sol e de quando eu pensava que tudo é mais alto à noite. Conspirava por amores irreais e contos de fadas. Afinal de contas nunca senti a ervilha debaixo do colchão. Quando viva, não era especial. Quem sabe era agradável. No mínimo agradável. Eu acho. Me olhando agora não me reconheço muito. Perdi as pintinhas do rosto. Alguma larva comeu, provavelmente. Vida que segue. Não vi luz nenhuma mas também não há escuridão. Eu só to aqui observando a minha carne podre. Quando viva, me sentia doente. Ainda sinto. Às vezes tento voltar pro meu corpo e sinto as larvinhas beliscando o meu couro putrefato. Decadente, de fato, sempre fui. Até meu cadáver é vulgar. Só queria uma porcaria de incenso pra jogar nessa vala, ver se esse cheiro de boêmia estragada passa. Quando viva, eu bebia muito. Agora conhaque não me faz mais efeito. Quando viva eu não sentia muita coisa.

Quando viva eu já estava morta.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O frio da madrugada me assusta. Não trouxe agasalhos suficiente, como é de praxe. Me fazer sozinha entre a barulheira da rua também não é novidade. Acabou o seu dia. Eu não quero conversar. Eu quero ir pra casa. Já tá muito tarde pra ir sozinha, então eu espero. Espero o que? Você não volta logo. Eu só to aqui, como sempre estive. Eu e meu coração de vidro, como me disseram. Continua a quebrar e eu continuo a remendar porque a minha sina é amar por demais. É medo? É desamor? Enquanto cantam por aqui eu deságuo. Costumava ser calor por aqui, sabe. Eu caí na voragem do mar. Eu caí no meu abrigo. A minha tempestade me desabrigou. Quando você volta? Você não vai mais voltar. Faz geada por aqui. Faz geada em mim. O coração é de vidro. Eu sou de vidro. Já dizia que não precisa de medo de me magoar porque eu sempre me refaço. Mas hoje eu vou deixar o frio me carregar. Eu não quero conversar. Eu quero ir pra casa.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

a vida
te dá do bom e do melhor
e justo quando você se sente bem
ela vai tomar
tudo o que é seu
te deixando com as duas mãos livres
pra montar o nó da corda
com a qual você vai se matar
e quando você estiver morrendo pendurado
a corda vai arrebentar

quinta-feira, 5 de maio de 2016

hoje a minha amiga me perguntou
por que é que continuam partindo meu coração
coração de vidro
que já tem tanto durex
que eu não sei como é que bate
e ama
tanto
você
a cada pulsar

e os cacos me percorrem
e me cortam
porque o coração é de vidro
e coisas de vidros não são feitas pra durar

Eu não sou essa que a tua voz chama. Esse não é meu nome. Não sou essa que você procura. Eu estive aqui e criei raízes no concreto feio e sujo. Plantei as minhas flores, que morreram. Eu não sou essa que teus olhos enxergam. Me enxergaram alguma vez? Porque eu enxerguei você. Eu te vi. E te amei. E te amo. Mas esse que você chama não sou eu. Eu não peço pra ficar. Eu peço pra ir.

se eu pudesse voltar
eu me encontraria
ainda pequena
e diria:
"criança, não leia fantasias
largue esses brinquedos
e vá estudar.
quando você crescer
não vão se importar
se você tem um coração bom
cheio de amor pra dar.
quando você for maior
vão querer saber até quanto você sabe contar
e até quanto você consegue acumular
porque aqui onde eu moro
é só isso que é importante
é só isso que vai valer.
então guarde as ervilhas
esconda-as nos vinte colchões
não pegue as rosas vermelhas
de um jardim que não é teu;
e não confies em nada que brilhe demais
nem em pessoas demasiadamente pequenas
criança, vá estudar
e comece logo a guardar
tudo que é belo e importante
dentro do peito
porque se souberem que você sabe amar
eles vão te esmagar.
eles não leem poemas
eles não ouvirão o que você tem a falar
se você não souber acumular
vai ter de voltar no tempo
pra se avisar
do perigo que é
confiar demais"
eu poderia ser sido
quem sabe
astrofísica
e arqueóloga
e eu queria ter sido
oceanógrafa
e remexer
no fundo do mar
eu poderia ter sido
uma ótima matemática
e poderia ter sabido
quanto que é que o x.
mas eu não sei
porque eu não soube decidir
o que ser
e me tornei
perita,
expert,
PHD
em derrotas.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Procurei a porta pra sair desse quarto escuro que me prende todos os dias. Não tem janela, não tem nem sequer uma luz. Eu não sei quanto tempo faz que eu to aqui ou que dia que é hoje. Que dia é hoje? Eu tentei escrever alguns poemas, mas escrever no escuro não parece sensato. O que é sensato? Não tenho o que comer, então provei meus dedos. Como é que eu vou escrever agora? Não tinha gosto. Nada mais tem gosto. Não sinto mais cheiro nenhum além do meu próprio fedor de putrefação. Cade a porta? Não sei se tem como fugir de mim mesma. Não sei se eu tenho como escapar dessa nojeira que é o meu ser. Guardo rancor, guardo mágoa e espalho o meu amor. Deve ser disso que a minha carne é feita. De resto. Eu sou um resto. Cadê a porta?