segunda-feira, 21 de janeiro de 2013



Lar da gente

Uma das coisas que eu mais aprecio é viagem de carro. As coisas se movem tão rápido ao redor enquanto eu continuo parada com a mesma respiração lenta. E uma música alta para que eu não ouça o som das rodas em atrito com o asfalto. Foi o que eu obtive. Numa tarde de domingo ensolarada com o tempo fresco. Uma paisagem bonita, uma música calma e minha família. E depois da minha mãe falecer, eu juro: foi  a primeira sensação de lar verdadeiro que eu tive. Aquela sensação que a gente sente quando encontra alguém que gosta ou algum lugar que dê paz; aquela sensação de que nós pertencemos a algo. Finalmente não me senti uma forasteira. Finalmente senti como se pertencesse a algo. Por mais estranho que seja, a minha sensação de 'lar' vêm de várias coisas diferentes - mas nunca tinha vindo da minha família. Não até domingo. Meu pai dirigia em silêncio enquanto nós ouvíamos uma música e meu irmão roncava no banco de trás. A única coisa que se mantinha na minha cabeça era que eu finalmente poderia morrer. Eu morreria em paz se morresse naquele momento, naquele instante de felicidade que eu tive. Naquela fração de minutos que eu senti - finalmente - que minha família era o meu lar. E que eu seria sempre o lar deles. Por mais diferenças que nós tenhamos. E que o meu lar seriam aonde eles estivessem.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Chovendo-me


É quase poético como a chuva lava. A chuva é poética. Conhece todos os lugares do mundo e os visita com frequência. Já atingiu milhares de pessoas em milhares de momentos diferentes. Em pedidos de casamento ou em funerais. Ou traz ou leva. Geralmente, traz muito e leva pouco. E me deixa molhada e fria como se eu realmente estivesse parada embaixo desse temporal. Mas ela sempre atinge. E sempre que chove forte, sempre que os ventos rasgam as minhas janelas, sempre que o céu está em guerra com a terra eu me sinto uma certa paz. Talvez pela mentira que eu conto para mim mesma, dizendo que chove apenas lá fora e aqui dentro eu estou segura. E toda vez que os pingos - mesmo com toda a resistência das minhas janelas fechadas - entram dentro de casa e chegam até mim, eu chovo junto. Não me traz mais nada. Me leva. Me lava.

Os sonhos de Catarina



Catarina era solitária. Não gostava de ficar acordada. Seus sonhos eram tão mais lindos do que a vida real! Vales e cachoeiras, e histórias de amor que se tornavam realidade aconteciam sempre que pegava no sono. Mas um dia Catarina estava com o coração doendo e não conseguia dormir. Deuses ouviram o seu desespero por dormir e lhe concederam três sonhos magníficos - mas assim que acordasse, talvez nunca mais poderia sonhar algo parecido com eles novamente. Catarina aceitou. Seu coração pesava em mágoa e dor e a vida lhe machucava intensamente. Então dormiu. E sonhou com um vale maravilhoso, cheio de fadas e criaturas mágicas. Com montes de terra de pulavam ao contato com os pés e peixes que se deixavam ser montados. Então acordou. E chorou. E chorou muito. Chorou porque não queria ter acordado e quando o fez sua vida estava pior do que quando adormecera. E ouviram o seu choro e lhe deram o segundo sonho. Catarina sonhou com uma paixão arrebatadora entre um robô e uma humana e que a cada toque apaixonado que a humana dava ao robô, ele se transformava em humano também. E Catarina sentiu cada toque e cada beijo como se fosse ela a vivenciar a experiência. Mas o sonho acabou e Catarina acordou. Catarina chorou mais do que havia chorado antes. Sabia que nunca teria um amor como o qual sonhou e sabia que seria impossível ter um com a vida que tinha. E Catarina rasgou-se com as mãos e caiu em desespero porque só tinha mais um sonho. E este seria o seu último. Então os deuses ouviram o seu pranto e lhe deram o terceiro sonho, com muito pesar no coração. E Catarina sonhou com um espelho. Sonhou que se abria para dentro e que por dentro de sua pele havia vales e montanhas, cachoeiras e rios, fadas e duendes, casais apaixonados e crianças nascendo. Todas as fantasias e sonhos que um dia pudera imaginar - estavam todos dentro de si. Ela era os sonhos e as fantasias e ela vivia para dentro. Ela acordava-se para si mesma todas as noites. E Catarina sonhou.

"Sonhar é acordar-se para dentro”.

Amigo Imaginário

Ele tinha um desenho. Usou o punho para fazê-lo. E o desenho o acordou. Parecia uma grande meleca preta com dois olhos de burquinha. E o desenho o encarava. Era pequeno como uma mão de criança. Ele não se sentia tão triste no início. Mas a vida era difícil e ele chorava às vezes.
O às vezes se tornou frequente. E o desenho sempre estava lá e o confortava. E o desenho cresceu. E cresceu. Crescia junto com a dor no peito dele. E o desenho ocupou o quarto inteiro. E a casa. E o jardim. E quando o desenho não cabia mais em lugar nenhum, ele fez outro desenho. Usou os pulsos para fazê-lo.

Meu poema sobre o amor

Cafuné, conchinha 
Abraço, briguinha
Beijinho, careta
Mãos dadas e um sorriso
Você está aqui
Como também está lá
E está por todos os lados
E permanece comigo
Sempre