quinta-feira, 9 de maio de 2019

antes eu me perguntava como os jovens da ditadura tinham tantas forças pra lutar
daí anos depois, estamos aqui, parados no mesmo lugar:
só não me tiraram a minha voz porque eu canto alto
eles que são os corretos, mas são eles que gritam assalto
- senhor, eu não tenho nada pra te dar!
o que tinha era minha educação, e mesmo assim fizeram questão de tirar
sem pesquisa não tem vacina, o que já facilita um tanto essa chacina
não tá dando nem pra comprar um pacote de feijão,
não tá dando nem pra trabalhar porque emprego não tem pra nóis não...
fica difícil de escrever uma poesia sem a caneta na mão,
até o papel eles me tiraram porque isso causa revolução
mas sinhô, eu te digo, aqui ninguém se cala!
mesmo quando abre a boca pra dizer que "racismo é coisa rara"
coisa rara é alguém sobreviver nesse sistema,
o ódio se espalhando que nem se fosse uma doença endêmica.
todo dia a gente chora com o coração na garganta,
criança não vai mais pra escola mas já pode aprender a atirar
e é tudo pro cidadão de bem, o temente a deus
- mas cara, deus tá dormindo, então é melhor cê cuidar dos seus!
como eu tô cuidando dos meus, e a gente cresce com raiva
nossa juventude agora foi envenenada
nossa revolução não é com arminha na mão,
estamos cansados de chorar por mais um no caixão
é sempre uma poesia, é sempre uma canção
pra eles lagosta e vinho branco,
pra gente só resta esse canto
um canto de igualdade, um canto de liberdade.
eu lembro que uma vez o jovem belchior se pôs a cantar:
"sempre desobedecer, nunca reverenciar"

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