quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Eu sou a estalagem na estrada escura, úmida e deserta. Eu sou a casa de passagem que vão os músicos, os boêmios, os poetas, os pintores. Eu sou a musa por uma noite, por uma semana, por um mês. E me amam com a intensidade de uma fogueira santa no corpo de uma vela na falta de luz elétrica. Me amam, me desejam, me pintam até que não sobre mais corpo meu que não tenham visto. Há uma cama para cada qual que me possuiu e um quarto para cada outro que me abandonou. Eu sou o lar dos viajantes, dos aventureiros, dos desertores das guerras da vida. Eu sou a bruxa não-queimada, eu sou a xamã de todas àquelas que foram amadas e abandonadas. Eu sou aquela cujas mãos curaram todos que passaram por mim e também aquela cujas feridas nunca foram nem sequer limpadas, quiçá examinadas. Eu sou um corpo em putrefação. Eu sou a estalagem na qual os homens vêm e vão. Me amam como fogo e eu queimo como lava. Me desejam como quem tem fome e eu os alimento. Eu sou aquela que está sempre sozinha, os viajantes nunca ficam. Eu não sou a esposa, eu não sou a filha que eles queriam que eu fosse. Eu sou a casa de passagem para os que precisam se reabilitar da vida monótoma e sem graça na qual estamos todos presos. Eu sou uma aventura presa numa taverna, eu fui escolhida à dedo pelo próprio diabo pra queimar. Deixe-me arder.

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