quinta-feira, 6 de junho de 2019

para escrever o que escrevo eu precisei do silêncio
porque só o silêncio canta a dor que eu sinto.

traição é confiar e amar um homem cujas mãos eram sujas ao me tocar,
arrancando minha roupa sem pedir ou ao menos perguntar
e eu não soube falar não porque eu queria ser amada.
traição é estar um pouco mais alcoolizada e se ver completamente paralisada
esperma seco no corpo, e eu não me lembro de nada
fiquei em silêncio durante tanto tempo porque não queria perceber que eu era mais uma
mais uma dessas que foi rasgada e se tornou nenhuma.
traição é a mentira, é a confusão
é a negação que eu me coloquei durante tanto tempo e eu não tinha ninguém pra conversar
eu me tornei vazia, oca sem nada por dentro além da invasão
as marcas na minha alma se tornaram a minha confissão.
não me olhava no espelho pelo medo da aparição
eu não sou o suficiente, por isso que levam o que eu tinha na contenção.
eu sou suja, eu sou quebrada
nem cinco banhos tiravam a sensação de estar encrostada
de sujeira de alguém que não era eu
mas mesmo assim se achou no direito de roubar o que era meu.
e eu achei que fosse esquecer, que eu fosse relevar
mas agora tudo dói tanto que eu preciso falar
eu sou só minha e de mais ninguém
hoje o espelho me abraça quando não tenho mais ninguém
a cicatriz que eu carrego não está mais no meu corpo
mas a raiva e a mágoa que eu sinto vão muito mais além do que eu posso explicar
esse poema não supre o oco que ficou.

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