quarta-feira, 26 de junho de 2019

mundo

se meu mundo eu que aprenda a levantar
já que quando eu caí,
só tinha dedo pra apontar
tinha medo da minha própria sombra
nunca sabe quando ela resolve te apunhalar
pelas costas, o mundo cobra
o verso dobra e eu continuo sem respirar
ja quis acabar com a minha própria vida
mas as feridas não me deixaram movimentar
cê me pergunta porque é que eu carrego tanta solidão
é porque na hora de falar de suicídio some tudo os irmão
é mais fácil levar flores e remorso pra um caixão
do que levanta a bunda e mostra gratidão
a mão que afaga é a mesma que apedreja
então eu sigo com minhas faces todo dia na incerteza
será que eu hoje é o dia da minha morte?
mais um dia que eu vivi e eu tô chamando isso de sorte
vozes na minha cabeça, não tem com quem falar
tanto remédio que meu corpo começa a se desintegrar
já me chamaram de louca e de perturbada
essas falas que me derrubam não servem de nada.
um buraco fundo no meu peito que ninguém soube cavar,
tava tão no escuro que ninguém soube me achar
é por isso que eu escrevo pra quem ta assim
saber que isso não é o fim
lagrimas escorrem do meu rosto e eu nao sei porque
mais um dia lutando com a morte, os cortes não me deixam esquecer

quinta-feira, 6 de junho de 2019

para escrever o que escrevo eu precisei do silêncio
porque só o silêncio canta a dor que eu sinto.

traição é confiar e amar um homem cujas mãos eram sujas ao me tocar,
arrancando minha roupa sem pedir ou ao menos perguntar
e eu não soube falar não porque eu queria ser amada.
traição é estar um pouco mais alcoolizada e se ver completamente paralisada
esperma seco no corpo, e eu não me lembro de nada
fiquei em silêncio durante tanto tempo porque não queria perceber que eu era mais uma
mais uma dessas que foi rasgada e se tornou nenhuma.
traição é a mentira, é a confusão
é a negação que eu me coloquei durante tanto tempo e eu não tinha ninguém pra conversar
eu me tornei vazia, oca sem nada por dentro além da invasão
as marcas na minha alma se tornaram a minha confissão.
não me olhava no espelho pelo medo da aparição
eu não sou o suficiente, por isso que levam o que eu tinha na contenção.
eu sou suja, eu sou quebrada
nem cinco banhos tiravam a sensação de estar encrostada
de sujeira de alguém que não era eu
mas mesmo assim se achou no direito de roubar o que era meu.
e eu achei que fosse esquecer, que eu fosse relevar
mas agora tudo dói tanto que eu preciso falar
eu sou só minha e de mais ninguém
hoje o espelho me abraça quando não tenho mais ninguém
a cicatriz que eu carrego não está mais no meu corpo
mas a raiva e a mágoa que eu sinto vão muito mais além do que eu posso explicar
esse poema não supre o oco que ficou.

carta de amor

um poema pra todas as minas
às vezes acorda e a gente sabe que se sente sozinha.
uns te chamam de puta, enquanto cê ta na labuta 10 horas por dia
mão na cabeça rezando prum deus que num sabe se é ou não invenção
misericórdia, mãe, da nossa nação.
tomando vinho às nove da manhã
pensando em comidas chiques, tipo marzipan
que eu nunca vou comer, nunca experimentei
não tenho o dom e nem a paciência pra cozinhar,
só pra explanar e brigar.
tão cansada de homens mas tava precisando transar
só que com esses saco de lixo não dá nem pra encostar
"você tá tão estressada vem aqui pra relaxar".
se tu fala que não o cara começa a te humilhar
tu é feia mesmo, eu nem queria te comer
e daí vem aquela reflexão, que eu não queria ter não
mas tantos anos de humilhação não fogem do meu coração
queria ser mais bonita, queria ser mais delicada
queria ser mais gostosa, queria ser mais magra.
puts, mas pra quê?
pra um cara vir aqui e tentar me explicar
tudo aquilo que eu mesma ja tentei ensinar
jogar todas as minhas ideias e a minha arte no chão?
e ainda passar um pano por cima alegando que era paixão
paixão eu tenho pela voz das minha mina,
que segura minha mão e nunca deixou solta
as vezes tem desavença sim mas a gente sempre torna a se acerta.
quanto a esses macho reclamando que não quer batalhar com mina
relaxa, na roda a gente solta um pouco pra você poder ganhar
nossa treta é aqui fora
fala demais, hype demais e pouco faz
fica esperto que a gente não tá deixando passar
se levanta a voz pra mim eu vo fazer calar
se levantar a mão pra mim eu vo arrancar
uma vez na sua vida respeita tua mãe e ouve o que outra mulher tem pra falar
nossa treta mal começou, tamo tudo cansada dessa baboseira mas a gente não vai parar
mulheres no topo do mundo, onde que é o nosso lugar

domingo, 2 de junho de 2019

os braços da árvore da vida só servem pra carregar mais um enforcado
cena de crime? adulterado, galo no bolso implantado de algum inocente
que era crente em deus, mas deus ta dormindo e dessa vez não foi acordado
minha terra tem palmeiras onde reina o cárcere privado 
detento sujo sem dinheiro odiado pelo país inteiro
foi pego roubando o leite em pó, mas a gente sabe, pó aqui só se for pra ser cheirado
e o mais bandido de todos é aclamado e chamado de senhor presidente
policial é aplaudido de herói na nação, coitado de quem gritar que marielle esta presente
nunca esqueçamos, ela foi assassinada
pau brasil sangra pela terra vermelha de sangue, mulheres que sangram 
machucadas e abandonadas sem dinheiro pra sustentar os filhos que o invasor fez gerar
mas não, não pode matar 
só as crianças na rua, morrendo de frio com seus cachorros abraçados 
inverno é glamoroso pra quem têm os casacos de pele importado.
o novo deus é uma arma de fogo, o crime passa impune
muitos morrem mas o importante é cantar sobre din e ter autotune
corrente de ouro no pescoço, a peça no bolso e a carreira esticada
quando cabral chegou confundiu o tropical com o paraíso 
terra que foi abandonada por todos os deuses e só a violência faz reinar 
deus e o diabo estavam na terra do sol, mas deus foi embora e agora é um inferno particular
nativo queimado vivo, fogueira santa mas nessa missa não teve ninguém pra rezar 
cocares espalhados no chão, não têm mais mata pra explorar 
ao mesmo tempo que eu quero me matar eu quero ficar pra lutar
só que a árvore da vida cresceu e foi abandonada 
os braços esticados tal como cristo foi crucificado 
a árvore do meu país carrega o sangue de um povo assassinado