quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Eu sou a estalagem na estrada escura, úmida e deserta. Eu sou a casa de passagem que vão os músicos, os boêmios, os poetas, os pintores. Eu sou a musa por uma noite, por uma semana, por um mês. E me amam com a intensidade de uma fogueira santa no corpo de uma vela na falta de luz elétrica. Me amam, me desejam, me pintam até que não sobre mais corpo meu que não tenham visto. Há uma cama para cada qual que me possuiu e um quarto para cada outro que me abandonou. Eu sou o lar dos viajantes, dos aventureiros, dos desertores das guerras da vida. Eu sou a bruxa não-queimada, eu sou a xamã de todas àquelas que foram amadas e abandonadas. Eu sou aquela cujas mãos curaram todos que passaram por mim e também aquela cujas feridas nunca foram nem sequer limpadas, quiçá examinadas. Eu sou um corpo em putrefação. Eu sou a estalagem na qual os homens vêm e vão. Me amam como fogo e eu queimo como lava. Me desejam como quem tem fome e eu os alimento. Eu sou aquela que está sempre sozinha, os viajantes nunca ficam. Eu não sou a esposa, eu não sou a filha que eles queriam que eu fosse. Eu sou a casa de passagem para os que precisam se reabilitar da vida monótoma e sem graça na qual estamos todos presos. Eu sou uma aventura presa numa taverna, eu fui escolhida à dedo pelo próprio diabo pra queimar. Deixe-me arder.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Se eu tou cheirando pinga é porque eu tava bebendo.
Parei pra pensar esses dias que eu nunca vi o oceano do lado de lá. Nunca vi o sol se pôr no mar e isso me deixou um tanto quanto triste. Mas sabe, é que ultimamente tudo vem me deixando um tanto quanto triste. Todas essas partidas e todas essas pessoas que nunca ficaram e que colocaram a culpa em mim - você é difícil demais, você é intensa demais. Talvez eu seja. É bem provável que eu seja. O problema é que eu não quero ter por perto gente que tem medo de ver o mar do lado de lá. Do outro lado, sabe? E eu quero ver. E quero ver o oceano e todos os outros que tiver pra eu ver. Quero ver tudo que há para ser visto e até o que não der pra enxergar. Eu enxergo todo mundo e não tô ligando muito se as pessoas me enxergam. Vida que segue, eu tô aqui. Enchendo a minha cara de pinga por mais um dia na semana que é pra ver se essa solidão - não solidão, mas se estar sozinha - não passa. Veja bem: o que me dói não é estar sozinha, até porque eu sempre estive e isso nunca me foi um problema. O que me dói é falar e falar e falar e ninguém realmente escutar. Quando eu te digo sobre as coisas do céu e as coisas da terra que me fazem ter medo, cê acha que é demais. As pessoas geralmente ficam impressionadas com essas pirações. Eu sou a maior aventura que eu conheço e eu gosto de gente que não tem medo - até porque eu tenho medo demais. Quiçá. Quiçá porra nenhuma. A verdade é que eu tava pedalando e pensei que poderia usar a palavra quiçá num texto meu, mas quiçá que eu nem sei como encaixar quiçá nesse devaneio sobre as dores da minha vida e o oceano do lado de lá. Falei pro meu pai que eu queria ver o oceano do lado de lá e ele falou "é, quem sabe um dia a gente vá pro Peru". É, pai, Peru. Eu não sei de muita coisa da vida mas sei muita coisa de sentimento e eu sei que eu sinto muito. Sei que eu já aguentei tanta porrada nessa vida e eu vivi tão pouco pra tudo isso de chute na cara que eu levei. Eu sou um mulherão da porra. Eu sou a melhor companhia que eu tenho e é por isso que eu escrevo. Escrevo pr'eu ler e pensar que um dia, eu vou ver o oceano do lá e que eu não vou querer estar com ninguém além de mim. Eu, que me aguentei durante tantos surtos e crises existenciais que eu nem sei contar. Se eu citar mutantes é porque eu tou ouvindo e eu acho que o refrigerador de todo mundo não funciona.
Mas pois é. Quem sabe, quando eu arrumar o meu refrigerador e ver tudo em tecnicolor eu possa ir até o outro lado pra ver o sol se pôr do lado de lá. Quiçá.

sábado, 3 de dezembro de 2016

alguém me ajuda
a tirar a minha bicicleta da chuva
que enquanto chove assim ela vai sofrer
e amanhã, se amanhecer
a ferrugem vai aparecer

alguém me ajuda
a tirar a minha bicicleta da chuva
o granizo não perdoa ninguém
muito menos quem tá esperando um alguém
vir me ajudar
a tirar a porcaria da minha bicicleta
desse inferno de chuva que não cessa,
que não pára
e que temporal todo dia dentro de mim
enquanto eu tento
sair pra poder tirar a bicicleta da chuva
pra poder fazer parar de chover
e amanhã
SE amanhecer
e parar de chover.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

tenho uma confissão a fazer: acordei com raiva. não com raiva, mas com o coração partido. segurei em minhas mãos todos os cacos e feridas que você causou em mim e todas as que eu causei em você - sangrei. eu acordei com raiva, raiva pelo silêncio que você me dá, raiva pela gritaria que você não escuta. por que sumir? por que a gente não pode conversar, como dois adultos? é que eu sempre te falei que em matéria de amor ninguém é adulto. somos todos um bando de crianças brigando pra ver quem cai do escorregador primeiro. eu tive um sentimento, uma intuição de que seria eu a cair primeiro. e caí. mas você caiu logo depois e logo em cima de mim. me machucou. eu não sei pra onde correr, sabe. eu tento ficar tranquila e pensar que tudo o que vai volta - mas eu não quero que você sinta o que eu senti. eu não quero que você sinta esse cansaço que eu sinto só de pensar nessa dor excruciante que me atormenta o dia inteiro. eu não dormi hoje. lembrei dos teus cabelos na minha cara, do teu cheiro de casa e dos beijinhos. mas aí eu fiquei com raiva, raiva de ter te amado tanto que agora eu tô tendo que me refazer inteira e repôr no meu corpo todas as partes que um dia você tocou. eu não quero mais nada teu aqui porque dói. dói em mim mais a mentira do que a traição, dói em mim mais a falta de respeito do que a falta de amor. vem aqui buscar os restos de mim que são teus e os restos de poema. os restos das tuas roupas que em ataque de raiva eu rasguei. você não ouse reclamar de roupa rasgada quando você rasgou a minha alma. você é um desconhecido que carrega todas as minhas falhas e cicatrizes, então eu peço encarecidamente que cê devolva. me devolve as músicas que eu te dei, me devolve o amor que eu te emprestei e me devolve pra mim. você não tinha direito nenhum de ter me roubado e eu sempre te disse que eu era minha e só minha. então, por favor, quando ler isso, me devolve pra mim. eu me preciso. mais do que eu achava que precisava de você e do seu falso amor. por favor. me devolve.