domingo, 31 de março de 2024

Sinto como se meu coração estivesse embrulhado em um arame farpado e toda vez que eu vou me desvencilhar de você, machuca mais um pouco. 
Todos os farpos enfincados oxidando meu coração, quando vou retirá-los, me causam dor e depois quase que um alívio imediato 
Mas mesmo assim doem 
E pouco a pouco, cada pedacinho que eu consigo curar 
Tem mais um outro tanto que eu ainda preciso verificar 
Ver os estragos, analisar os danos. 
Entender que você nunca vai me pedir o perdão que eu mereço 
E que acima de ter que te perdoar, também preciso pedir perdão a mim mesma. 
Me perdoa, minha querida, por ter nos permitido ficar tanto tempo com o coração perfurado. 
Me perdoa, meu amor, por não ter te protegido quando eu sabia que ele não iria mudar. 
Me perdoa, por ter permanecido no mesmo lugar, ainda que sem respirar. 
Me perdoa por ter te negligenciado e tentado curado as feridas dos outros quando as nossas ainda nem foram examinadas
Me perdoa
E eu te perdoo 

quinta-feira, 21 de março de 2024

Minha vó sempre está procurando alguma coisa 
Com as mãos na cintura, ela vai e volta 
Me conta alguma coisa que já tinha me contado em outra hora 
Eu finjo surpresa, ela da risada e continua a procurar. 
Abre os armários, abre as gavetas, tudo ela tem que desarrumar
Perde o isqueiro, pega o meu, acende o cigarro no fogão e esquece de desligar. 
As luzes ficam acesas e na sua memória nada é mais interligado.
Ela se lembra do tempo que era moça, trabalhava na roça e brigava com o pai 
Ela se lembra de um tal sobrinho que há muito tempo não viu mais. 
Mas as vezes esquece meu nome. 
Minha avó sempre está a procurar alguma coisa que eu não sei o que é
E sempre antes de dormir ela olha as mesmas fotografias, me conta as mesmas histórias de outrora 
Ela se emociona, coloca as mãos na cintura e volta a perambular. 
Minha avó já não cuida do jardim, mas quando eu era pequena ela quem cuidou de mim. 
Levava palmadas por estragar suas flores quando queria brincar, flores hoje em dia que estão a murchar porque minha avó não se lembra mais de regar. 
Cada dia que passa minha avó procura mais, procura algo dentro dela que não vai mais voltar 
Ela procura pela casa toda, as vezes pela rua se ela se lembra de voltar 
Com as mãos na cintura, minha vó fica confusa e tenta encaixar as peças que sobraram da sua cabeça 
Antes que eu me esqueça, minha vó dura na queda não vai deixar-se derrotar
Pelas lacunas em sua memória 
Pelos cigarros que ela não termina de fumar 
Minha avó com as mãos na cintura as vezes consegue se encontrar 
Procurando nos armários da cozinha, por pedacinhos de sua história que não conseguiu nos contar 
E por vezes eu também não consigo lembrar de tudo que ela me diz 
Tantas histórias, reais e irreais, os pedacinhos da sua memória 
Minha avó coloca as mãos na cintura 
E vem conversar.