quinta-feira, 27 de agosto de 2020

 Às vezes sua imagem aparece na minha cabeça. Não que eu queira pensar nas coisas que já se passaram, mas eu penso, sabe. Tava no sinal da colombo e eu senti um cheiro tão familiar. Um cheiro que era seu, que só tinha em você (mais precisamente no seu pescoço). Meu olho encheu de lágrima. Umas lágrimas grossas, pesadas, quentes, só ia caindo e eu tava sem saber o que fazer. Parei o carro, acendi um cigarro, solucei, chorei, senti sua falta. Assoei meu nariz como se eu pudesse repelir todo o sentimento de você, tudo da sua presença que ainda me emocionava mesmo não estando presente. Peço educadamente que você se retire. Você já se retirou fisicamente, então, peço que por gentileza, não vem mais não. Não venha mais no sonho, não venha mais na memória, não venha! Não venha de jeito nenhum. A não ser que seja pra rir de mim, do cheiro do meu cigarro, do jeito que eu canto, do jeito que eu me perco. Mas se não for assim, não quero que venha. 

O carro parado, o vidro embaçado e eu lá chorando que nem uma idiota por uma presença tão sutil. Como se eu andasse ao seu lado. Mas não, porque você também nunca gostou de segurar mão na rua, e eu sempre achei que esse era o ato mais bonito que você diz que gosta de alguém sem dizer com a voz. É uma carta, mais uma pra pilha de coisas que eu escrevo pra você, e você não lê, que eu vou fazer sabe. Mas hoje eu tive que parar o carro pra chorar, porque eu senti sua falta de uma maneira tão imensa. "E se abraçar de forma descomunal até que os braços queiram arrebentar". Sinto que não nos abraçamos, não dizemos adeus, não conversamos. Não nos falamos, e eu nunca te disse, mas te amo. 

Ou te amei.

 Não sei. 

Tinha escrito uma vez que lágrimas de amor são sempre quentes e eu acredito nisso, porque quando choro por você, cai esse choro grosso, pesado, pesado, pesado, abafado de dentro de mim. Cozinhei você dentro de mim, mas se desfez, só vapor, quente, quente, quente. Pesado. E quando choro, me livro disso.

Por isso eu chorei hoje, chorei tanto. Gritei como se tivesse perdido um braço. Chorei tanto, gritei tanto, sofri tanto, porque não quero mais esse amor abafado dentro de mim. Então eu chorei, e sua presença se foi, e eu chorei mais. E respirei.
Respirei, acendi um cigarro, fumei, tomei um gole de vinho. E sim, eu sei que não deveria beber e dirigir, mas foi só um gole. 

E eu fui pra casa. 

E você foi embora.

domingo, 23 de agosto de 2020

que o meu atrapalho não me atrapalhe a fala quando eu tiver que te falar
todas as coisas que eu senti durante o dia e não podia evitar de pensar
que talvez você seja bom pra mim, talvez eu não possa escapar
mas eu ainda não encontrei palavra nenhuma, e isso só me atrapalha
porque se eu não disser, você nunca vai saber, e daí isso vai ficar entalado
eu sempre te disse que eu era muito atrapalhado, mas não pensei que seria a tanto
a ponto de eu não conseguir te explicar nadinha de nada porque me sinto tão entusiasmado
que as vezes me entalo no meu atrapalho e simplesmente engasgo 

 e não consigo te falar todas as coisas que deveria falar
ou todas as coisas que eu acho que deveria
mas que talvez, no final do dia
eu não deveria dizer nada

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

para que você não me roube



hoje não quero que tenha nada meu
nem o pensamento
nem a saudade dos seus olhos de jabuticaba 
nem a reminiscência do seu cheiro. 
para fugir de você 
vou entrar dentro de mim e fechar as janelas e a porta.

se você não quer 
eu me quero 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 assino tanto nomes que já não lembrava qual deles era o meu
cabelo cortado, cabelo comprido, ninguém me reconheceu
nem eu me reconheço quando me olho no espelho
também não me reconheço quando uso algum tipo de batom
vermelho
pra combinar com os olhos meus olhos que possuem um desejo de ter tudo e de não ter nada
de ser boazinha, mas gosto de ser malcriada
com ideias boas, só que mal expressadas
com tantas vontades, mas muito cansada.
eu assino tantas eus que já não lembro de qual é a primeira,
de qual chegou, de qual me vestiu
de qual chorou, de qual riu
tantos espectros, não sei qual você viu
eu tenho tantos nomes, e acho que todos são meus 


agora consigo me lembrar,
todas essas pessoas sou eu

domingo, 9 de agosto de 2020

 hoje meu coração está tão pesado que eu queria deixá-lo na calçada
deixar em cima do lixo, levar pra reciclagem
quem sabe outra pessoa reaproveita melhor mesmo com algumas peças estragadas

hoje meu coração está tão pesado que eu até ando curvado
queria tanto abandonar todas coisas que eu sinto sem me achar culpado
mas hoje meu coração dói tanto que até me sinto meio desnorteado

sem norte, sem direção, meu coração era minha bússola mas aqui não funciona o norte
meu coração está tão pesado que não me sinto mais nem um pouco forte
queria poder deixá-lo na calçada
tal qual latinha amassada
alguém sempre passa recolher

será que vão vir buscar o resto das coisas que eu tinha pra escrever

terça-feira, 4 de agosto de 2020

achei que tivesse me perdido de mim
mas logo me reencontrei.
me distrai com as cores do caminho,
com as vozes e os cochichos
eu jurava que tinha me perdido
e que ia ter que me reconstruir do zero.
mas como é que se perde assim
como é que eu me perco de mim?
tamanha baboseira, tamanha mentira
tamanha as quinquilharias que eu carrego comigo
tanta coisa fica pesada, e nada disso eu tinha perdido
então quando alguém ri comigo eu já acho suspeito
fico aflito, mas me sinto finito
e o tempo ri de mim porque não passo contigo
sou perdido pelo caminho,
mas perdido de mim eu acho que sei lá
longe de mim ia me sentir tão sozinho,
entrei em desespero, olhei e não me encontrei
ai que susto! achei que tivesse me perdido...

domingo, 2 de agosto de 2020

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vejo o seu rosto 
ouço a sua voz 
e tenho vontade de compor poesias
pra ler pra você enquanto estivermos a sós.

você me inspira e eu me sinto desperta 

você é arte