eu lembro do dia que te prometi como eu ia saber se eu amava
e você me disse que era saber se eu gostava de conversar.
e eu conversava em silêncio com você,
você entendia.
continuo dizendo tudo sem falar nada
esperando que você possa ouvir.
porque eu me sinto tão sozinha, noite e dia
sem forças para me movimentar.
mas espero que você se orgulhe de mim,
mesmo estando um pouco danificada
com algumas feridas meio abertas, expostas
putrefando no meu peito como você no caixão.
mas isso é natural, não tem nenhum mal e nem me dói o coração.
nem nos feriados de natal - maldito feriado cristão e anual - comendo peixe cru porque eu não sei preparar como você fazia.
mãe, eu me sinto tão sozinha!
são tempos difíceis, tempos dolorosos, carregados de ódio
e ninguém mais sabe conversar como nós
as velas que queimaram no teu velório não apagaram,
e eu peço que me perdoe porque eu esqueci a tua voz
já faz tanto tempo desde que eu ouvi a última vez,
e eu ainda ouço você chegando depois das seis
choveu no dia em que você se foi
e eu deixei muita coisa pra te falar depois
mas eu era mais criança e não entendia que não existe um depois,
existe um passado e é onde você está e eu sei que não vai voltar.
sempre que vou te ver coloco elvis pra você ouvir,
jogo as cinzas do cigarro longe pra você não sentir.
e eu prometo que eu vou parar de fumar e terminar de estudar.
mas mãe, eu me sinto tão sozinha!
sem ninguém pra me escutar
eu esqueci como você era e só tenho imagens póstumas pra me lembrar.
mas mãe, eu me sinto tão sozinha sem você pra conversar e me dizer
como é que eu vou saber se um dia eu amar.
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