terça-feira, 27 de setembro de 2016

antigamente 
eu me preocupava mais 
com as poesias que eu escrevia
com as canções que eu cantava

antigamente
eu me orientava mais
sobre os caminhos que eu tomava
sobre as bebidas que eu ingeria 

antigamente
eu orquestrava mais 
e as músicas que eu ouvia 
faziam jus às sinfonias

antigamente
eu não era tão triste
e não me preocupava
em ter vinte e poucos anos
mas é que antigamente 
eu era criança
e não pensava
que um dia
eu viveria no antigamente.
espero vinte primaveras pra ver
se é nesta aqui que eu vou florescer
de pernas abertas e o corpo coçando
dentro de mim nada nasceu

plantaram em mim coisas que não pedi
e desde então venho esperando
quero saber quando é que vai acontecer
me prometeram flores e não vejo nenhuma nascer

o broto que me deram eu plantei
com as minhas próprias lágrimas eu reguei
essa semente que não nasce
essa flor que não floresce

espero vinte primaveras pra ver
mas acho que não é nessa que eu vou florescer
me deram flores e me deram brotos
mas quando plantam no meu solo elas só deixam morrer

espero vinte primaveras pra ver
eu acho que eu não fui feita pra florear.
sou flor que não abre, sou semente que não brota
minha pele não é feita pra cheirar
meus olhos não são um deleite para olhar
tudo que aqui pousa, aqui morre
tudo que aqui planta, aqui não vinga
esperei vinte primaveras pra perceber
eu não sou flor de ninguém pra florescer

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

já pequena e com os olhos amendoados
tinha culpa gigante dentro do peito
assolando a minha inocência
grande que sou com os olhos lacrimejados
tenho essa culpa apodrecendo dentro de mim
essa culpa fétida, essa culpa nojenta
essa culpa por existir
essa culpa por sentir.
grande que sou com os olhos marejados
expurgo a culpa em poesias
e quando me deito com o sol no fim do dia
hei de ser culpada pela minha melodia
e todos os pensamentos pecaminosos
e toda a sujeira que existe dentro de mim
servirá de combustível quando me queimarem na fogueira

arrepeso

me arrependo
de não ter ido
de não ter ficado
de não ter me entregado à noite escura na qual eu vivo

me arrependo 
de não ter bebido
de não ter fumado
de não ter tragado toda essa toxicidade que eu enxergo


me arrependo
de ter nascido
e ter vivido
tão morbidamente como ja tivesse morrido
antes mesmo de nascer neste maldito mundo
e eu, mau parido!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

o meu abismo só não me destrói mais que você
tinha esse pavor insano de te esquecer
enquanto faço minhas malas
choro as angústias que me trouxeram a loucura
as minhas cicatrizes de guerra
tornam a aparecer
os cortes e as queimaduras
tudo que eu pensei
eu supus que ia viver
deixo para trás tudo que era belo
tudo que era bom
tudo que era poesia.
tudo o que era eu
se perdeu

sábado, 10 de setembro de 2016

Durante o xixi matinal da boemia percebi que meus sapatos, tão pequenos, estavam desamarrados. Logo me vi caindo, tropeçando no cadarço bobo e solto que ali jazia debaixo do outro pé. Talvez, se durante a minha epifania mijando eu tivesse amarrado os sapatos não teria tropeçado. Mas se eu não tivesse tropeçado talvez nunca teria tido essa epifania de que talvez o melhor seria amarrar os sapatos. Talvez o melhor de tudo teria sido não beber e não fumar nada. Aí, quem sabe, durante o meu mijo eu não estaria pensando nos meus sapatos. Pequenos. Sempre tive pés muito pequenos para o meu tamanho. Talvez fosse essa a razão de ter tropeçado. Tropecei? Foi a bebida ou foi o cadarço? Talvez, pensei  enquanto sentada na privada, mesmo se eu não amarrar os cadarços deste sapato tão pequeno eu ainda tropeçarei. Não amarrei. Tropecei.