domingo, 22 de março de 2026

 tenho 243 rascunhos 

nunca visitados 

nunca consertados 

que eu abandonei 

são 243 rascunhos 

de poesias que poderiam ter sido lindas 

e completas 

e lidas 

mas eu nunca terminei 

tenho medo de voltar ao passado e ficar presa lá 

nas grades e linhas de uma coisa que começou mas não foi dada a chance de ser finalizada

uma linha parada 

uma quase poesia 

uma quase história 

uma quase lembrança

eu preciso escrever pra te deixar ir embora. 

os nós que fizemos já não estão mais atados, nesse fio cortado
e o meu coração apertado que jaz em minhas mãos. 

eu preciso te escrever um poema pra te deixar partir, 
assim como te escrevi um

para te receber em casa 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

todas as chances que tive enquanto mulher eu agarrei com todas as forças que havia sob minhas unhas 

e descarreguei em oportunidades todo o meu talento, esforço e honestidade 

e ainda assim nada parece suficiente 

mas depois que eu me tornei mãe, todas as oportunidades se esconderam 

querem que eu trabalhe 6x1, mas não consigo ir buscar minha filha 

querem que eu busque minha filha mas não tenho como nos sustentar 

"empresa não é caridade", eu já ouvi muito falar 

mas eu não quero caridade, eu quero trabalhar 

e mesmo assim custam a me contratar 

é mãe solteira, vai ter que faltar...

se sua filha ficar doente, quem vai cuidar? 

e nos feriados, você tem quem possa te ajudar? 

se precisarmos no fim de semana, vai poder vir trabalhar? 

e aí eu te questiono, se minha filha chora, logo ligam pro conselho tutelar 

mas quem precisa tirar do colo da mãe, não vão buscar 

só eu, que bebo e fumo de fim de semana, mas cuidado! sua filha vai se traumatizar 

ah tá! 

vai ficar traumatizada porque eu tô fazendo os corres pra criar, 

levar, buscar, dar de comer e dar de banhar e assim ainda vem gente pra me julgar quando eu quero desanuviar 

tá bom, pode não ser do melhor jeito! 

mas quem se estressa e vai correr pode apostar que tem o meu respeito 

pena que eu não tenho pra onde correr e nem pra onde fugir 

já que eu sou mãe e minha filha faz parte de mim 

não tô aqui pra reclamar da maternidade, tô pra reclamar das condições que se coloca uma mãe e espera que ela vá cumprir todos os requisitos pra ser quase uma divindade! 

creche lá na puta que pariu, não abre vaga, não tem emprego e quem disser que me viu na rua, MENTIU! 

porque eu sempre tô em casa fazendo tudo acontecer 

e mesmo assim tudo parece fugir de mim 

todas as oportunidades eu agarro agora com uma mão só enquanto a outra eu nino minha criança 

uma mão cheia de desejos e sem nunca deixar de ter esperança 

que esse sistema que odeia mulheres um dia vá ruir 

e eu não precise mais chorar pra ninguém se comover a me ajudar 

e que minha filha possa crescer saudável, 

tendo uma mãe que está em paz 

mas enquanto tudo isso não acontece eu faço acontecer 

com uma mão só, enquanto a outra seguro a da minha filha para que ela possa crescer

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

 eu desisto

de te esperar chegar na frente da minha casa 

com o coração em brasa ansioso pra me apertar 

eu desisto 

de te procurar a cada esquina, pensando que se te ver meu coração vai parar 

eu abdico 

dessa vontade que eu tenho ainda de te beijar e de te acariciar, sentir teu calor, te amar com fervor enquanto o dia não clarear 

mas eu aceito

que tudo tem que acontecer da forma que tem que acontecer e não há nada que nem eu e nem você possamos fazer 

então eu te deixo

sábado, 19 de abril de 2025

como é que serei lembrada se eu não sou vista? 
não saio de casa, não arrumo trabalho 
a jornada de um trabalho não condiz com o horário de uma creche 
e todos os dias quando chove ainda percorro o mesmo caminho 
e sempre me pergunto como vou vista se também não sou lembrada 
esquecida, cuidando de todos e esquecendo um pouco de mim
acordo, cuido da nenê, limpo a casa 
procuro um emprego, choro um pouco, me desespero 
mas ainda tenho fé porque nunca fui desemparada 
nunca nem por Deus, porque nunca nos faltou nada
cozinho, fumo, tento criar porque me sinto presa 
mas nunca estive mais livre 
tenho uma fé cega que me faz acreditar que vou vencer 
mesmo quando eu esqueço de mim.

agora já estou me lembrando, de quem eu era 
e de como ela está distante de quem eu sou, de quem estou me tornando 
um oceano separa nós duas, mas nos une por um fato 
todas as coisas que já escrevi, que guardo num blog que também não é lembrado 
e antes de dormir eu me questiono 
como vou ser lembrada se não sou vista?
mas serei e sou lembrada 
pela minha filha, que me olha e me enxerga todos os dias 
e por todos os poemas que eu já escrevi um dia 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

esse ano faço 30 e quando era mais nova jurava que não passaria dos 27 
vivendo no limite, sempre no pique tentando me descobrir 
usando o que tinha, bebendo o que podia sem horas pra voltar pra casa 
fumando vinte cigarros por dia achando que isso ia me dar um fim 
sem responsabilidade, sem vontade e sem maturidade 
esse ano faço 30 e me sinto mais criança do que nunca  
enfrentei todos os meus medos cuidando de uma bebê sozinha 
quem me viu quem vê 
quem me conheceu um dia vai ter que de reconhecer 
porque eu já não sou a pessoa que eu era, a menina ingênua que eu fui 
eu sobrevivi, aprendi a viver e ainda sigo aprendendo 
eu chorei muito e sigo chorando 
sempre escrevendo o que eu estou vivendo, talvez seja comum a alguém 
e de menina fraca, obcecada pelo caos 
me tornei menina forte, mãe obstinada 
renascendo sempre dentro de mim 
eu nunca fui forte, porque eu descobri que sou uma potência sem fim 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

as minhas culpas eu grito no silêncio 
de uma vergonha tão grande que queima o meu peito 
culpa e vergonha que sinto desde pequena 
desde nem saber o que é culpa direito 
não vivo sem ela que preenche grande parte do meu ser 
e no chuveiro gelado na inquietude do banheiro abafado eu choro pelas minhas impurezas 
pelas minhas verdades que não foram ditas, escondidas 
e pelas falhas que venho tendo 
erros que venho cometendo 
e sinto os olhares me queimando 
as vezes até se apropriando de algo que não é de mim 
e sigo aflita, talvez pelo resto dos meus dias
sentindo essa culpa sem fim