Devaneios de tomada
Às vezes penso que a eletricidade faz muito barulho. Se eu ainda tivesse os meus amigos físicos, poderia perguntar se há mesmo um barulho. Um som. De repente, tudo faz música e a gente que não ouve. O silêncio quase nunca existe. Ou o mundo canta ou quem canta é a gente. Mas, por fim. Tirei todas as coisas da tomada pra que pudesse ficar em silêncio, mas aí um passarinho veio cantarolar na minha janela.
- Boa tarde, você por favor, faria a gentileza de se retirar?
Não foi embora. Ao invés disso, encarou a tomada como eu estava encarando. Ruído ruim, ruído chato. Nos meus tempos de ensino médio eu gostava muito de física mas eu não entendia as correntes elétricas. Penso em eletricidade e penso naqueles romances que a gente só chega perto e dá um treco na periquita. De você olhar a pessoa falando e começar a babar. Eu queria fazer parte de uma corrente elétrica. Sair correndo por esses cabos e fazer ruído na tomada dos outros. Põe o dedo aí, otário.
terça-feira, 25 de abril de 2017
domingo, 23 de abril de 2017
quinta-feira, 20 de abril de 2017
O mundo para em um eterno instante
Em que tudo lá fora
E aqui dentro nada.
O mundo suspira em um breve momento
Em que lá fora sons, música, poesia
E aqui dentro - nada.
O mundo respira, o mundo cria e por mais um dia
Aqui dentro - nada.
No escuro do meu mundo, do meu quarto
As paredes costumavam falar
Eu costumava cantar.
Mas tudo que era meu foi pro mundo
E tudo que era eu - se perdeu.
O mundo acorda
E aqui dentro - nada.
Em que tudo lá fora
E aqui dentro nada.
O mundo suspira em um breve momento
Em que lá fora sons, música, poesia
E aqui dentro - nada.
O mundo respira, o mundo cria e por mais um dia
Aqui dentro - nada.
No escuro do meu mundo, do meu quarto
As paredes costumavam falar
Eu costumava cantar.
Mas tudo que era meu foi pro mundo
E tudo que era eu - se perdeu.
O mundo acorda
E aqui dentro - nada.
segunda-feira, 10 de abril de 2017
entrei no mar com pedras nos pés e cartas nas mãos
para àqueles que nunca vão ler minhas poesias
nem sequer pensar em mim algum dia
entrei no mar para nadar com o meu coração
vestido cor do céu, cabelo cor de terra
eu entrei no mar pras sereias virem me buscar
as poesias borraram com o sal e a boca se encheu d'água
eu entrei no mar pra mergulhar e sentir a vida acabar
com pedras nos pés e o coração na mão
eu entrei pra nadar, mas eu não vou mais voltar
para àqueles que nunca vão ler minhas poesias
nem sequer pensar em mim algum dia
entrei no mar para nadar com o meu coração
vestido cor do céu, cabelo cor de terra
eu entrei no mar pras sereias virem me buscar
as poesias borraram com o sal e a boca se encheu d'água
eu entrei no mar pra mergulhar e sentir a vida acabar
com pedras nos pés e o coração na mão
eu entrei pra nadar, mas eu não vou mais voltar
Se você vier me perguntar por onde andei eu não sei dizer. Na parede do meu quarto tem estantes e estantes de todos os lugares imaginários que eu fui e nunca voltei pra contar história. Na minha coleção tem corações e corações de todos os artistas que eu amei. Poetas, músicos, malabaristas, pintores. Alguns dançavam por mim enquanto outros praguejavam meu nome em trovas pelos bares. Eu sou cigana, eu te falei. Eu não paro, eu não fico, eu não me sustento em lugar nenhum enquanto suspenso minha alma pelo ar. Eu sou cigana, eu não tenho lugar pra morar. Eu sou cigana, eu não tenho lugar pra permanecer.
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